Astrologia
e Psicologia
Angela
Souza Nunes
(psicóloga
e estudiosa de astrologia)
O
presente comentário tem a finalidade de emitir minha
opinião sobre o artigo 'O Outro Lado da Questão',
de Otávio Azevedo, presidente do SINARJ. Quero dizer
que concordo inteiramente com ele, que reagiu com perplexidade
ao modo como o Conselho Federal de Psicologia emitiu resolução
de proibir os psicólogos de usarem a astrologia,
florais, quirologia, foto kirlian e outras práticas
ditas esotéricas, aliadas à psicologia. Falo
como psicóloga que sou, formada há mais de
vinte anos, e estudiosa deste conhecimento milenar, que
é a astrologia. A atitude do CFP prende-se ao fato
de que, para eles, tais práticas não foram
validadas no campo da psicologia e, portanto, não
são científicas. Mas é de fundamental
importância ressaltar que nessa proibição
transparece desdém e preconceito, mostrando, mais
uma vez, a arrogância daqueles que se julgam detentores
do crivo da 'verdade'.
Passei muitos anos me dedicando a estudos em teoria da ciência
e epistemologia, investigando o que realmente era a psicologia,
pergunta que eu me fazia sempre. O motivo desta pergunta
é que era evidente para mim, assim como para muitos
colegas e professores, que este campo de estudos apresentava
uma inconsistência teórica enorme, abarcando
áreas de aplicação fundamentadas em
teorias que chegavam a ser conflitantes. Se alguém
estuda psicanálise na faculdade, dentro de teorias
e sistemas, sente o abismo que se forma quando assiste às
aulas de psicologia experimental, que trata do comportamento
e da cognição, isso só para citar um
exemplo. Suas teorias são diversas, partindo de axiomas
excludentes. Seu campo de estudos é todo recortado.
Não se trata, neste pequeno espaço, de provar
teses, nem de conferir com as fontes fidedignas, mas apenas
de emitir uma opinião. Julgo importante chamar a
atenção para a necessidade de fomentar o exercício
da autocrítica em nosso meio, mais do que exercer
um papel de normatizadores da "verdade" - com a legitimidade
a que se auto-conferem os "verdadeiros cientistas". Quem
que disse que psicologia é ciência? Primeiro
seria preciso perguntar o que é a ciência,
coisa que os próprios "cientistas" hoje não
sabem mais responder. Existe, há anos (mais de dez
anos) uma enorme e fértil discussão no âmbito
epistemológico, sobre as transformações
que se têm operado no 'campo científico', e
no próprio conceito do que seja a ciência,
que está deixando de ser critério de "verdade",
de legitimidade. Os pesquisadores são levados cada
vez mais a colocar em xeque o conceito do que seja "a verdade".
Porque, então, os psicólogos continuam a insistir
nessas questões de 'critério de verdade' e
critério do que é ciência ou não
como argumento para classificar os saberes? Se olhassem
um pouco para o campo em volta veriam claramente que esse
argumento já dançou há muito tempo.
Portanto, o que transparece mesmo é uma atitude defensiva
que não se justifica, como se estívéssemos
ameaçados de um desvirtuamento, de perder nossa condição
de cientistas tão arduamente conquistada.
Pois saibam todos que, ciência ou não (claro
que não!), saber legitimado, aceito ou não,
a astrologia - talvez por ser um conhecimento milenar -
possui um sistema interpretativo extremamente sofisticado,
coerente e auto-consistente, coisa que nem de perto a psicologia
alcançou. Quem precisa de ser ciência (e não
é mesmo) quando tem em mãos um sistema tão
bem entrelaçado, auto-determinante e sincrônico,
que pode ser comparado às enunciações
mais avançadas de nossa época, como os sistemas
caóticos, os fractais de Mandelbrot, os sistemas
holográficos ou o inconsciente coletivo de Jung e
seus arquétipos (que entre si, guardam o mesmo cerne
sistêmico)? (Eu frisei a palavra compará-lo
para justamente poder dizer que a astrologia não
requer nenhuma teoria explicativa externa a ela, que a fundamente.
Além do mais, quem tem pesquisado ultimamente sabe
que o papel da teoria, enquanto fudamentadora externa e
de fora do campo a ser explicado, está ruindo. Hoje
mais nos aproximamos de uma fusão entre as referências
'teoria' e 'objeto'. Daí que quando 'comparamos'
a astrologia a um sistema holográfico, por exemplo,
ela é o próprio sistema holográfico).
Desculpe dizer, mas do ponto de vista de consistência
interna, a astrologia é um sistema 'completo', que
se auto-sustenta, enquanto a psicologia continua absolutamente
fragmentada, utilizando até hoje fundamentação
externa e em diferentes conceitos e áreas do saber,
como estatística, física, matemática,
estruturalismo, organizacional , psicanálise etc,
só para citar alguns. Então porque o desdém?
Parece que os psicólogos já se esqueceram
de sua história, onde a partir do programa positivista
de Augusto Comte, foi postulada a impossibilidade da psicologia
dentro da ordem científica (aqui será preciso
conferir com Châtelet, 1981, p.23). Mas isso já
passou, e eles já se esqueceram, desde que conseguiram,
a duras penas, conquistar um pedacinho deste ilusório
campo científico. Se não conquistaram consistência
teórica - denunciada por muitos estudiosos, principalmente
filósofos, físicos e matemáticos -
alcançaram, pelo menos, credidibilidade, o que lhes
permite desenvolver um importante papel dentro da nossa
sociedade. Porque, então, portar-se de forma tão
inquisidora e anti-ética em relação
a um outro conhecimento diferente? O que está oculto
por detrás deste comportamento tão fóbico?
Deixem de se comportar como o avestruz e enfrentem sem medo
os desafios de nosso tempo, ou correm o risco de se tornar
jurássicos narcisos, onde fatalmente permanecerão,
retrógrados, em seu gueto de confabulações.
Atenção:
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