O Deus de cada um
 

Resenha de Bruno Torres Paraiso
Vivemos dias de intensa intolerância racial, religiosa e para com as minorias étnicas – enfim contra tudo aquilo que fuja ao padrão da “normalidade oficial”. Esse padrão é mais aparência, porque, na nossa passagem pela vida, guardamos segredos que extrapolam essa “normalidade”. Na verdade, somos mais aparência do que realidade. Portanto, a fonte da intransigência está em nós mesmos. Quando brigamos com o outro, estamos brigando, antes de tudo, com o nosso lado oculto, refletido nele. A religião é fonte de temperança, mas nem sempre funciona assim. Daí, a indisposição para conviver com os que se pautam por “escolhas” diferentes. É da natureza humana, não importa o grau de desenvolvimento de determinada sociedade. Ocorre aqui e no dito Primeiro Mundo, cujo elevado padrão cultural deveria, em princípio, ser um estímulo à aceitação das diferenças como fatores de evolução e progresso. Escudamo-nos em dogmas para nos defender de nós mesmos e do outro, posando de donos da verdade, de proprietários da moral e do Deus verdadeiro. Temos extrema dificuldade de aceitar a diferença como um fato da vida e, simplesmente, viver e deixar viver.

Depois do surpreendente e doloroso 11 de setembro, em Nova York, EUA, o fundamentalismo islâmico mostrou a cara, pisando fundo no acelerador, e todo mundo passou a associá-lo, de maneira furibunda, à religião amorosa, solidária e fraterna de que Maomé foi o profeta, como se toda ela houvesse sido contaminada pela intolerância. Não é a realidade. O fundamentalismo agrega uma minoria de fanáticos. A crueldade extrema que exercitam nada tem a ver com o Alcorão. Na verdade, o Islã não é o pai do fundamentalismo religioso. Essa malversação do bem de modo geral também sempre esteve associado às outras duas outras religiões que vieram de Abraão: o judaísmo e o cristianismo. O problema é que tais minorias são extremistas. O que, no geral, as religiões verdadeiras, aquelas que são laços de piedade para religar o homem a Deus, têm como essência da sua revelação e pregação é o amor.

Toda essa introdução meio solene vem a propósito de livro recém-lançado por um trabalhador da causa do ecumenismo, ou seja, do crescente aprimoramento do diálogo entre as diversas religiões, em nome da construção da concórdia e da paz. E essa construção só se pode fundar, justamente, no amor. Não há outro modo de aplainar a intolerância entre seres humanos. É trabalho de Hércules, mas vem acontecendo, apesar das diferenças doutrinárias e das práticas adotadas por essas religiões em busca do fortalecimento da fé.

O livro se chama O Deus de cada um, editado pela Agir, e seu autor, Waldemar Falcão, é músico, ator, engenheiro de som, produtor musical, astrólogo (fundou o Sindicato dos Astrólogos do Rio de Janeiro), além de escritor, tradutor e editor – um homem de muitos instrumentos e um só objetivo: a fraternidade. Ele tem um livro anterior que também é uma jóia: Encontros com médiuns notáveis (Rio de Janeiro, Nova Era, 2005), no qual traça o perfil de alguns dos grandes paranormais com os quais trabalhou e teve rico contato. Uma delas merece citação especial, Dona Célia, recém-falecida, cujo poder de ver através da matéria era algo impressionante, e somente lendo o relato de Waldemar, nos Encontros, a gente pode ter uma idéia do que era capaz a mente e o espírito dessa grande dama, que nunca se disse dessa ou daquela religião, porque somente acreditava na que era, a seu ver, a maior de todas: o amor.

No seu novo livro, sem fanatismo de qualquer espécie, Waldemar procura mostrar, mansamente, sabiamente, sem o menor propósito de impor qualquer “verdade indiscutível”, que a dúvida é que impulsiona o homem para a sabedoria, porque há muita coisa em baixo do sol que não se pode explicar. Permanecer na dúvida é ignorância. A saída está em buscar as explicações possíveis, com a mente e o espírito abertos. O caminho do conhecimento passa pela humildade e pela persistência, sendo longo e árduo de se trilhar. Não pode ser um processo solitário. Há que trocar interrogações, em busca dos pontos em comum, e eles existem, desde que não se fique na superfície, mas se mergulhe na água profunda da dúvida. Um esforço desses pede meditação e ação. Não raro produz asperezas. Sem isso, no entanto, como aplainar arestas, numa seara tão sutil, na qual se lida com o imponderável, com valores imateriais?

Na obra, o autor reuniu nove personalidades de escol nas religiões que praticam, entrevistou-as e traçou um perfil de cada uma delas. O fantástico é que, concluída a leitura, ficam evidente os pontos comuns na busca espiritual de cada entrevistado, apesar das diferenças doutrinárias e rituais. O livro resultou generoso, amoroso e muito bem humorado. Consegue fazer com que o leitor, terminada a leitura, renove suas esperanças, hoje tão combalidas, num mundo e numa vida melhores. Os entrevistados são praticantes do Catolicismo, Zen-Budismo, Neo-Pentecostalismo, Umbanda, Islamismo, Hinduísmo, Judaísmo, Santo Daime e Paranormalidade. Cada um tem uma história de vida e de fé extraordinária, mas o mais impressionante é a lição de tolerância, de aceitação da diferença, de ecumenismo que o livro oferece, graças ao elevado espírito dos entrevistados e à elegância, ao cuidado e ao respeito com que Waldemar conseguiu tirar o melhor deles, em prol dessa grande causa que é a derrota da intransigência.

Se você, caro leitor, é católico, evangélico, kardecista, umbandista, pentecostal, esotérico, judeu, islamita ou mesmo ateu, ponha de lado o seu preconceito e pegue o livro do Waldemar. Mergulhe em suas páginas. Preste atenção a cada história de vida e de fé nele narrado. São vidas em construção, mas que já têm bons alicerces, fundados em experiências dignas de registro. Em construção estamos todos, até chegar a hora da despedida, mas alguns conseguem ir mais além do que outros. Depois da leitura, tire um momento para refletir. Procure chegar às suas próprias conclusões sobre a importância de trocar dúvidas, em busca de mais sabedoria, ainda que com alguém que pensa diferente. É assim que se começa a somar – a única soma que vale a pena e persistirá além da matéria. Esse exercício, não tenha dúvida, vai torná-lo melhor e colocá-lo ainda mais perto do seu Deus, porque você somente poderá fazer isso se, primeiro, chegar perto do seu irmão. O livro ajuda a abrir sua mente, a despojá-la de preconceitos maléficos, a dar uma batida mais generosa ao seu coração.

Assisti ao debate que a Universidade Cândido Mendes, no Rio, promoveu com Waldemar e algumas das personagens de seu livro e fiquei deslumbrado com o nível de entendimento carinhoso, sem pieguice, entre eles, na abordagem de questões da maior complexidade nas religiões que seguem e que sempre foram motivos de separação entre os homens. Esse tipo de debate deveria ser ampliado, levado a outras universidades, para que os jovens aprendam, com experiências concretas e muito ricas, os malefícios do fundamentalismo e a generosidade do entendimento. Nenhuma religião é dona de Deus – sequer aquelas dos livros, as abrahâmicas. A idéia de Deus, que é indefinível, não pode ser propriedade particular, não deve ser usada para fomentar sectarismos. Trabalhar a favor da liberdade, do diálogo, da justiça, da compreensão, do entendimento, mais que um dever, é um prazer, um refrigério para a mente e para o espírito e para melhorar a vibração da sociedade em que vivemos.

Waldemar Falcão desenvolve um trabalho muito bonito nesse sentido, sem nenhuma pretensão de dono da verdade, de mestre. Católico de formação, mergulhou por muitos anos na Umbanda, aprendeu com Dona Célia que há muitos caminhos que levam à verdade, desde que trilhados com amor. Sem ele, o amor, não há Deus; portanto, não tem saída. O Deus de cada um não é um tratado de teologia, nem faz proselitismo: apenas apresenta as realidades e os fatos, evidenciando a possibilidade do diálogo. É assim, grão a grão, palavra por palavra, de lição em lição, apurando o ouvido, aguçando a visão e abrindo o coração que o homem poderá vencer os extremismos que semeiam ódio e sangue. Eis aí como um livro tão singelo é capaz de produzir tanto entendimento sobre uma questão que está na essência das angústias do homem contemporâneo – o fundamentalismo religioso, que semeia ventos maléficos, tempestades e hecatombes.

Se o caro leitor quer dar um lustro na quota de amor do seu coração; se deseja abrir um hiato de entendimento, em busca de paz para a sua vida – em geral tão conturbada por angústias internas e as pressões de um mundo cada vez mais complexo, que se transforma, a olhos vistos, no templo de um deus tenebroso, o do consumo desenfreado, que esvazia a vida e o espírito do seu sentido mais nobre –, pegue o livro do Waldemar e, num momento de calma, mergulhe na outra dimensão que ele propõe, argamassada com delicadeza, inteligência e tolerância, a liga da felicidade verdadeira. Ponho a mão no fogo, se você não for, aos poucos, sendo envolvido por onda de felicidade suave, de leveza de espírito, de paz interior, que vai torná-lo mais forte para os embates do cotidiano. Esperança, tolerância, entendimento, generosidade são forças poderosas. Plante-as na sua casa, na sua igreja, na sua comunidade. Você verá com que vigor essas sementes vicejarão e como a colheita saciará a sua fome de bem, de felicidade, de equilíbrio, assim como a de todos à sua volta. Tente, persista, não esmoreça.

Estou certo de que você não vai se arrepender. E, se tiver alguma capacidade de influenciar decisões no âmbito da sua comunidade religiosa ou de convívio social, convide o autor e alguns de seus entrevistados a irem onde você mora – e Cachoeiro é um espaço humano muito propício a iniciativas dessa ordem, com a sua pluralidade religiosa, com uma população estudantil sedenta de saídas para suas perplexidades. Promova um evento ecumênico e coloque autor e entrevistados lá, no centro da mesa, para que transmitam, ao vivo e em cores, a experiência que têm vivido sobre como alcançar a paz, a partir da tolerância, do respeito à diferença. Atenção: é importante abrir espaço para o debate. Além de ouvir, há que colocar as dúvidas na mesa, em busca de esclarecimento. Que tal tentar? A luta contra a intolerância, contra o preconceito, vale insistir, começa em casa: dentro de nós, no âmbito da família e no seio da comunidade de que fazemos parte ativa.

Somos seres, em maior ou menor grau, dotados de sentidos, razão e intelecto. Ou seja, temos capacidade de amar ou odiar, de ser racionais ou irracionais, de exercitar a nossa inteligência para o bem e para o mal. O Deus de cada um convida a todos a exercitar o lado mais amoroso da nossa eterna dualidade. E eu tomo emprestado, para terminar este registro, uma mensagem do bem, uma citação lapidar de Galileu Galilei, que não me caiu às mãos por acaso, enquanto rabiscava estas linhas: “Não me sinto obrigado a acreditar que o mesmo Deus que nos dotou de sentidos, razão e intelecto, pretenda que não os utilizemos”. Vamos utilizá-los no melhor sentido, em nome da vida. E não deixe para amanhã. Que seja logo!

Bruno Torres Paraiso é jornalista capixaba radicado no Rio de Janeiro.
Membro efetivo e fundador da Academia Cachoeirense de Letras e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo.


 
 


 
 

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