Vivemos
dias de intensa intolerância racial, religiosa e para
com as minorias étnicas – enfim contra tudo aquilo
que fuja ao padrão da “normalidade oficial”.
Esse padrão é mais aparência, porque, na
nossa passagem pela vida, guardamos segredos que extrapolam
essa “normalidade”. Na verdade, somos mais aparência
do que realidade. Portanto, a fonte da intransigência
está em nós mesmos. Quando brigamos com o outro,
estamos brigando, antes de tudo, com o nosso lado oculto, refletido
nele. A religião é fonte de temperança,
mas nem sempre funciona assim. Daí, a indisposição
para conviver com os que se pautam por “escolhas”
diferentes. É da natureza humana, não importa
o grau de desenvolvimento de determinada sociedade. Ocorre aqui
e no dito Primeiro Mundo, cujo elevado padrão cultural
deveria, em princípio, ser um estímulo à
aceitação das diferenças como fatores de
evolução e progresso. Escudamo-nos em dogmas para
nos defender de nós mesmos e do outro, posando de donos
da verdade, de proprietários da moral e do Deus verdadeiro.
Temos extrema dificuldade de aceitar a diferença como
um fato da vida e, simplesmente, viver e deixar viver.
Depois
do surpreendente e doloroso 11 de setembro, em Nova York, EUA,
o fundamentalismo islâmico mostrou a cara, pisando fundo
no acelerador, e todo mundo passou a associá-lo, de maneira
furibunda, à religião amorosa, solidária
e fraterna de que Maomé foi o profeta, como se toda ela
houvesse sido contaminada pela intolerância. Não
é a realidade. O fundamentalismo agrega uma minoria de
fanáticos. A crueldade extrema que exercitam nada tem
a ver com o Alcorão. Na verdade, o Islã não
é o pai do fundamentalismo religioso. Essa malversação
do bem de modo geral também sempre esteve associado às
outras duas outras religiões que vieram de Abraão:
o judaísmo e o cristianismo. O problema é que
tais minorias são extremistas. O que, no geral, as religiões
verdadeiras, aquelas que são laços de piedade
para religar o homem a Deus, têm como essência da
sua revelação e pregação é
o amor.
Toda essa introdução meio solene vem a propósito
de livro recém-lançado por um trabalhador da causa
do ecumenismo, ou seja, do crescente aprimoramento do diálogo
entre as diversas religiões, em nome da construção
da concórdia e da paz. E essa construção
só se pode fundar, justamente, no amor. Não há
outro modo de aplainar a intolerância entre seres humanos.
É trabalho de Hércules, mas vem acontecendo, apesar
das diferenças doutrinárias e das práticas
adotadas por essas religiões em busca do fortalecimento
da fé.
O livro se chama O Deus de cada um, editado
pela Agir, e seu autor, Waldemar Falcão, é músico,
ator, engenheiro de som, produtor musical, astrólogo
(fundou o Sindicato dos Astrólogos do Rio de Janeiro),
além de escritor, tradutor e editor – um homem
de muitos instrumentos e um só objetivo: a fraternidade.
Ele tem um livro anterior que também é uma jóia:
Encontros com médiuns notáveis (Rio de
Janeiro, Nova Era, 2005), no qual traça o perfil de alguns
dos grandes paranormais com os quais trabalhou e teve rico contato.
Uma delas merece citação especial, Dona Célia,
recém-falecida, cujo poder de ver através da matéria
era algo impressionante, e somente lendo o relato de Waldemar,
nos Encontros, a gente pode ter uma idéia do que era
capaz a mente e o espírito dessa grande dama, que nunca
se disse dessa ou daquela religião, porque somente acreditava
na que era, a seu ver, a maior de todas: o amor.
No
seu novo livro, sem fanatismo de qualquer espécie, Waldemar
procura mostrar, mansamente, sabiamente, sem o menor propósito
de impor qualquer “verdade indiscutível”,
que a dúvida é que impulsiona o homem para a sabedoria,
porque há muita coisa em baixo do sol que não
se pode explicar. Permanecer na dúvida é ignorância.
A saída está em buscar as explicações
possíveis, com a mente e o espírito abertos. O
caminho do conhecimento passa pela humildade e pela persistência,
sendo longo e árduo de se trilhar. Não pode ser
um processo solitário. Há que trocar interrogações,
em busca dos pontos em comum, e eles existem, desde que não
se fique na superfície, mas se mergulhe na água
profunda da dúvida. Um esforço desses pede meditação
e ação. Não raro produz asperezas. Sem
isso, no entanto, como aplainar arestas, numa seara tão
sutil, na qual se lida com o imponderável, com valores
imateriais?
Na obra, o autor reuniu nove personalidades de escol nas religiões
que praticam, entrevistou-as e traçou um perfil de cada
uma delas. O fantástico é que, concluída
a leitura, ficam evidente os pontos comuns na busca espiritual
de cada entrevistado, apesar das diferenças doutrinárias
e rituais. O livro resultou generoso, amoroso e muito bem humorado.
Consegue fazer com que o leitor, terminada a leitura, renove
suas esperanças, hoje tão combalidas, num mundo
e numa vida melhores. Os entrevistados são praticantes
do Catolicismo, Zen-Budismo, Neo-Pentecostalismo, Umbanda, Islamismo,
Hinduísmo, Judaísmo, Santo Daime e Paranormalidade.
Cada um tem uma história de vida e de fé extraordinária,
mas o mais impressionante é a lição de
tolerância, de aceitação da diferença,
de ecumenismo que o livro oferece, graças ao elevado
espírito dos entrevistados e à elegância,
ao cuidado e ao respeito com que Waldemar conseguiu tirar o
melhor deles, em prol dessa grande causa que é a derrota
da intransigência.
Se você, caro leitor, é católico, evangélico,
kardecista, umbandista, pentecostal, esotérico, judeu,
islamita ou mesmo ateu, ponha de lado o seu preconceito e pegue
o livro do Waldemar. Mergulhe em suas páginas. Preste
atenção a cada história de vida e de fé
nele narrado. São vidas em construção,
mas que já têm bons alicerces, fundados em experiências
dignas de registro. Em construção estamos todos,
até chegar a hora da despedida, mas alguns conseguem
ir mais além do que outros. Depois da leitura, tire um
momento para refletir. Procure chegar às suas próprias
conclusões sobre a importância de trocar dúvidas,
em busca de mais sabedoria, ainda que com alguém que
pensa diferente. É assim que se começa a somar
– a única soma que vale a pena e persistirá
além da matéria. Esse exercício, não
tenha dúvida, vai torná-lo melhor e colocá-lo
ainda mais perto do seu Deus, porque você somente poderá
fazer isso se, primeiro, chegar perto do seu irmão. O
livro ajuda a abrir sua mente, a despojá-la de preconceitos
maléficos, a dar uma batida mais generosa ao seu coração.
Assisti ao debate que a Universidade Cândido Mendes, no
Rio, promoveu com Waldemar e algumas das personagens de seu
livro e fiquei deslumbrado com o nível de entendimento
carinhoso, sem pieguice, entre eles, na abordagem de questões
da maior complexidade nas religiões que seguem e que
sempre foram motivos de separação entre os homens.
Esse tipo de debate deveria ser ampliado, levado a outras universidades,
para que os jovens aprendam, com experiências concretas
e muito ricas, os malefícios do fundamentalismo e a generosidade
do entendimento. Nenhuma religião é dona de Deus
– sequer aquelas dos livros, as abrahâmicas. A idéia
de Deus, que é indefinível, não pode ser
propriedade particular, não deve ser usada para fomentar
sectarismos. Trabalhar a favor da liberdade, do diálogo,
da justiça, da compreensão, do entendimento, mais
que um dever, é um prazer, um refrigério para
a mente e para o espírito e para melhorar a vibração
da sociedade em que vivemos.
Waldemar Falcão desenvolve um trabalho muito bonito nesse
sentido, sem nenhuma pretensão de dono da verdade, de
mestre. Católico de formação, mergulhou
por muitos anos na Umbanda, aprendeu com Dona Célia que
há muitos caminhos que levam à verdade, desde
que trilhados com amor. Sem ele, o amor, não há
Deus; portanto, não tem saída. O Deus
de cada um não é um tratado de teologia,
nem faz proselitismo: apenas apresenta as realidades e os fatos,
evidenciando a possibilidade do diálogo. É assim,
grão a grão, palavra por palavra, de lição
em lição, apurando o ouvido, aguçando a
visão e abrindo o coração que o homem poderá
vencer os extremismos que semeiam ódio e sangue. Eis
aí como um livro tão singelo é capaz de
produzir tanto entendimento sobre uma questão que está
na essência das angústias do homem contemporâneo
– o fundamentalismo religioso, que semeia ventos maléficos,
tempestades e hecatombes.
Se
o caro leitor quer dar um lustro na quota de amor do seu coração;
se deseja abrir um hiato de entendimento, em busca de paz para
a sua vida – em geral tão conturbada por angústias
internas e as pressões de um mundo cada vez mais complexo,
que se transforma, a olhos vistos, no templo de um deus tenebroso,
o do consumo desenfreado, que esvazia a vida e o espírito
do seu sentido mais nobre –, pegue o livro do Waldemar
e, num momento de calma, mergulhe na outra dimensão que
ele propõe, argamassada com delicadeza, inteligência
e tolerância, a liga da felicidade verdadeira. Ponho a
mão no fogo, se você não for, aos poucos,
sendo envolvido por onda de felicidade suave, de leveza de espírito,
de paz interior, que vai torná-lo mais forte para os
embates do cotidiano. Esperança, tolerância, entendimento,
generosidade são forças poderosas. Plante-as na
sua casa, na sua igreja, na sua comunidade. Você verá
com que vigor essas sementes vicejarão e como a colheita
saciará a sua fome de bem, de felicidade, de equilíbrio,
assim como a de todos à sua volta. Tente, persista, não
esmoreça.
Estou certo de que você não vai se arrepender.
E, se tiver alguma capacidade de influenciar decisões
no âmbito da sua comunidade religiosa ou de convívio
social, convide o autor e alguns de seus entrevistados a irem
onde você mora – e Cachoeiro é um espaço
humano muito propício a iniciativas dessa ordem, com
a sua pluralidade religiosa, com uma população
estudantil sedenta de saídas para suas perplexidades.
Promova um evento ecumênico e coloque autor e entrevistados
lá, no centro da mesa, para que transmitam, ao vivo e
em cores, a experiência que têm vivido sobre como
alcançar a paz, a partir da tolerância, do respeito
à diferença. Atenção: é importante
abrir espaço para o debate. Além de ouvir, há
que colocar as dúvidas na mesa, em busca de esclarecimento.
Que tal tentar? A luta contra a intolerância, contra o
preconceito, vale insistir, começa em casa: dentro de
nós, no âmbito da família e no seio da comunidade
de que fazemos parte ativa.
Somos
seres, em maior ou menor grau, dotados de sentidos, razão
e intelecto. Ou seja, temos capacidade de amar ou odiar, de
ser racionais ou irracionais, de exercitar a nossa inteligência
para o bem e para o mal. O Deus de cada um
convida a todos a exercitar o lado mais amoroso da nossa eterna
dualidade. E eu tomo emprestado, para terminar este registro,
uma mensagem do bem, uma citação lapidar de Galileu
Galilei, que não me caiu às mãos por acaso,
enquanto rabiscava estas linhas: “Não me sinto
obrigado a acreditar que o mesmo Deus que nos dotou de sentidos,
razão e intelecto, pretenda que não os utilizemos”.
Vamos utilizá-los no melhor sentido, em nome da vida.
E não deixe para amanhã. Que seja logo!