CAMPINA GRANDE, UMA ASSIS BRASILEIRA?
Marcelo Barros

Qual a relação entre uma cidade como Campina Grande na Serra da Borborema, no interior da Paraíba e a medieval cidade de Assis, nas encostas do monte Subásio, no centro da Itália, onde, no século XIII, um tal Francisco deixou para o mundo um testemunho de intimidade com Deus através da unidade com todas as criaturas do universo?

Nos últimos anos, além de terremotos que têm ameaçado a vida das pessoas e de seus monumentos históricos, Assis tem sido falada por ser a cidade na qual, em 1986, começou um costume inédito. Cada ano, líderes de diversas tradições religiosas se reúnem para dialogar e orar pela paz. O primeiro convite veio do papa João Paulo II, dizendo que "toda oração autêntica, em qualquer tradição religiosa, é inspirada pelo Espírito de Deus". Atualmente, centenas de pessoas se encontram para orar pela paz e têm variado o lugar da reunião na Itália e em outros países, como a França.

Se é possível comparar Campina Grande com Assis é por essa vocação de chamar pessoas de diversas religiões para dialogar. Na América Latina, Campina Grande tornou-se referência do encontro espiritual. Desde 1992, durante o carnaval, a prefeitura da cidade, com o apoio de instituições, como a Igreja Católica, representada pelo bispo, Dom Luiz Gonzaga Fernandes, promove esses encontros que reúnem mais de mil pessoas e envolvem toda a população da cidade e arredores.

A primeira iniciativa foi do prefeito Cássio Cunha Lima. Jovens voluntários como Íris Medeiros, Elianildo Nascimento e outros a assumiram e, ano após ano, a fazem crescer e se aprofundar.


Durante o carnaval deste ano, participei VII° Encontro para a Nova Consciência. Experimentei que o diálogo é mais profundo quando se fundamenta na convivência e amizade. Apesar das diferenças de pontos de vista e sensibilidade, vi que religiosos de várias tradições cristãs, budistas, hare-krishna, ufológos que esperam viajar em algum disco voador e astrólogos que nos fazem instigantes mapas astrais, espiritualistas e adeptos do Santo Daime, todos se sentaram na mesma mesa, comeram juntos, andaram pelas ruas da cidade e testemunharam que o amor de Deus e a unidade do universo é maior do que as nossas mesquinhas divisões humanas.

Saí do encontro convicto de que a diversidade das religiões não é um mal. São diferentes tematizações do mesmo encontro com o divino que está além de todo conceito humano. A confiança no outro que Deus nos manda olhar como irmão e irmã e não como concorrente e a fé de que "o Espírito de Deus enche o universo inteiro e está presente e atuante em todas as culturas"(Cf. Sab. 1, 7) nos fazem vencer os bloqueios e caminhar juntos no serviço da paz, da justiça e da defesa da natureza.


Ao menos, em um ponto, Campina Grande avançou mais que Assis. Enquanto na Europa, o encontro reúne bispos, cardeais, patriarcas, gurus e líderes das religiões, em Campina Grande, sem excluir os chefes, o encontro é aberto a todos e todos podem democraticamente participar.

 
 


 
 

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