Quem
acredita que Deus é Amor, tema escolhido pelo atual papa
para a sua primeira encíclica, é chamado a se
deixar impregnar por esta energia amorosa. Conforme o evangelho
de Lucas, Jesus traduz o “sede santos porque Eu sou santo”
(do Lev 19) pelo apelo: “Sede compassivos, como o vosso
Pai do céu é compassivo” (Lc 6, 36). Na
língua hebraica, o termo compaixão vem da mesma
raiz de útero e significa o amor que, normalmente, uma
mãe sente pelo/a filho/a que gerou. Se a nossa vocação
é vivermos com todas as criaturas este amor compassivo,
a comunidade dos discípulos e discípulas de Jesus
deve, em primeiro lugar, dar este testemunho de amor.
João XXIII, o papa que mereceu o título de “papa
bom”, procurou traduzir de mil maneiras esta vocação
divina. Ele dizia que existem duas formas de apresentar a fé.
Uma divide e segrega. A outra une e atrai. Os católicos
deveriam aprender a sempre apresentar a fé, não
de um modo que divida e sim que una as pessoas. Ele sabia que
uma forma arrogante de defender a verdade, a separa do amor
e acaba traindo a própria verdade. O salmo diz: “o
amor e a verdade se abraçam, a justiça e a paz
se beijam” (Sl 85, 10). O que resta de uma verdade, cujo
conteúdo deve ser o amor, se a preocupação
em absolutizar uma determinada expressão desta verdade
como se fosse a verdade em si mesma, é tão forte
que agride os outros e faz sofrer os irmãos? Como reconhecer
verdade na intolerância e no absolutismo mesquinho?
Nos Evangelhos, o termo Igreja aparece raramente. Entretanto,
pela segunda metade do século I, os grupos judaicos e
simpatizantes que se identificavam com o movimento profético
de Jesus de Nazaré se organizaram como comunidades abertas
e inclusivas. Era o contrário das sinagogas reservadas
a circuncidados. Estas consideravam a si mesmas como detentoras
únicas da herança da salvação. As
Igrejas, em oposição a isso, se constituíam
como espaços de inclusão para circuncisos e incircuncisos,
judeus e gregos, romanos e bárbaros, escravos e livres,
homens e mulheres. “No Cristo todos são Um”
(Cf. Gl 3, 27- 28). Os modos de compreender a fé, de
organizar a Igreja e de viver a missão eram os mais diversos
possíveis, mas a carta aos efésios deixa claro:
“Existe um só batismo, uma fé única,
um Deus que é o mesmo e é único. Atua em
todos e está em todos” (Ef 4, 4).
Hoje, muitas causas nobres da humanidade dependem do diálogo
e do compromisso das diversas Igrejas e religiões. Para
isso, como para obedecer à orientação de
Jesus, muitos cristãos procuram viver uma “diversidade
reconciliada”, na qual cada Igreja mantém sua identidade
própria e valoriza elementos das outras. Dom Helder Câmara
gostava de dizer: “Ninguém (podemos aplicar às
Igrejas) é tão pobre que não tenha algo
a dar e ninguém é tão rico que não
tenha o que receber”. Há décadas, as Igrejas
evangélicas aprenderam a se aproximar mais da tradição
litúrgica da Igreja Católica. Esta, que tinha
em grande parte se afastado do convívio cotidiano com
a Bíblia, reaprendeu com as Igrejas evangélicas
a fazer deste livro sua orientação de vida e de
espiritualidade.
O Concílio Vaticano II foi convocado pelo bom papa João
para reunir as Igrejas divididas. Por mais que a exegese de
seus textos possa ser discutida, a intenção dos
bispos era sabidamente valorizar as outras confissões
como comunidades de salvação, verdadeiras Igrejas-irmãs
e pôr fim ao escândalo da divisão. É
neste espírito que imploro a inspiração
do Espírito Santo sobre as Igrejas atuais para que a
moda não pegue e nenhum mau exemplo seja imitado. Seria
terrível que o mundo, habituado a campeonatos de futebol,
tivesse agora um campeonato de Igrejas, cada uma se dizendo
a única verdadeira, na qual subsiste a totalidade da
Igreja de Cristo.
Que os pastores se recordem de que, no mundo antigo, um pai
da Igreja oriental dizia que a Igreja era um ensaio de como
o mundo deveria ser. Sejam, então, laboratórios
de reconciliação e valorização do
diferente para que, um dia, quem sabe, ao olhar para uma Igreja,
por mais que ela se sinta a única verdadeira, as pessoas
comuns e sem religião possam dizer como os não
cristãos diziam dos primeiros cristãos: “Vejam
como eles (e elas) se amam”. Sem dúvida, esta é
a única verdade da qual Deus faz questão para
a sua Igreja.