Como
o tempo passa depressa! Parece que foi ontem que dizíamos
uns aos outros: "Feliz Ano Novo". Já se vai um mês.
Nas cidades grandes, as pessoas se deliciam nos cinemas vendo
o Titanic e ajudando o diretor a receber os 280 milhões
que ele gastou para filmar essa epopéia. Do lado de fora,
o mundo parece, às vezes, um imenso Titanic, afundando
em um oceano de violências e intolerâncias humanas.
De primeiro de janeiro para cá, centenas de pessoas foram
assassinadas na Argélia, dezenas perderam a vida em Chiapas,
no México. E no próprio Brasil, aumentam os massacres
nossos de cada dia, inaugurados em uma favela de São
Paulo, na própria noite de ano novo.
É urgente reconhecermos a responsabilidade das religiões
e, especificamente, do cristianismo por esse clima de violência
que o mundo respira. Na realidade atual, das guerras que infestam
o mundo, mais da metade tem motivos religiosos . Em Israel,
judeus contra islamitas; no sul da Índia, hindus contra
muçulmanos; na Argélia, muçulmanos fundamentalistas
contra não fundamentalistas e não crentes. Na
Irlanda, protestantes contra católicos, na ex-Iugoslávia,
católicos contra ortodoxos e muçulmanos... As
religiões que deveriam ser fermentos de paz têm
sido inspiradoras de fanatismo, violência e morte. Se
hoje é assim, na história foi pior. Quantos crimes
se cometeram em nome de Deus.
Neste ano, a França comemora os quatrocentos anos do
"Edito de Nantes"(1598). O país tinha vivido quase quarenta
anos de guerra entre católicos e protestantes. Em 1572,
na famosa "Noite de São Bartolomeu", que se prolongou
por mais dois dias, os católicos assassinaram aproximadamente
70.000 pessoas, protestantes ou suspeitas de protestantismo.
A corte francesa exultou. Em Roma, o papa Gregório XII
celebrou um culto de ação de graças pela
vitória. Mesmo se o filme "A Rainha Margot" exagera,
de fato, as ruas de Paris se cobriram de sangue. Para a maioria
das pessoas, a fidelidade à sua fé se verificava
pelo combate a todos que professassem a fé, de modo diferente.
Em uma sociedade na qual a religião legitimava o poder
político, confundiam-se os interesses dos reis com o
que pensavam ser os interesses de Deus. Somente em 1598, as
partes em conflito assinaram um acordo de tolerância entre
católicos e protestantes. O Edito de Nantes foi assinado
mais por razões políticas do que religiosas. Na
Inglaterra, somente no século passado (1829), os católicos
conquistaram o direito de viver sem ser discriminados. No Brasil,
até poucos anos atrás, ainda se discriminavam
protestantes e há quem até hoje, ainda veja as
religiões afro-brasileiras como coisas do demônio.
Quem anda pelo interior do Brasil percebe a diversidade cultural
e religiosa do povo. Pode também ver que as igrejas não
se educaram ainda para conviver com esse pluralismo. Aqui e
ali, as guerras religiosas ainda continuam e ainda será
necessário que se estabeleçam as bases para que
católicos e evangélicos, cristãos e não
cristãos assinem um novo e mais amplo "edito de Nantes".
O fundamentalismo é uma doença que surgiu no cristianismo
e hoje se espalha por todas as grandes religiões do mundo.
Os fundamentalistas, cristãos ou islamitas, judeus ou
hindus, acreditam que somente eles interpretam corretamente
as Escrituras e que Deus lhes confiou a missão de salvar
a verdadeira religião dos inimigos que a ameaçam.
Foi assim que, no tempo do nazismo, muitos religiosos sinceros
concordaram que se mandassem os judeus para os campos de concentração
e extermínio. O jovem judeu que assassinou o primeiro
ministro Isaak Rabin para impedir que ele concluísse
o acordo de paz com os palestinos declarou estar cumprindo uma
missão divina. Como os islamitas que mataram os monges
cristãos do Mosteiro de Monte Atlas na Argélia.
Cada vez que, num bairro de Goiânia, Palmas ou numa pequena
cidade do interior, um padre acha que só os católicos
têm direito de expressar a sua fé e passa com a
procissão e o carro de som ligado, em frente a uma igreja
pentecostal reunida para o seu culto, ele está no mesmo
caminho da intolerância e da guerra religiosa. Quando
um pastor pentecostal pensa que a fé se transmite aos
gritos e quanto mais ruidosa a assembléia, mais anuncia
o Evangelho, corre o risco de testemunhar um Deus intransigente
e desagradável, completamente oposto ao modo de Jesus
se aproximar das pessoas.
Hoje, muita gente sente no coração o desejo de
aprofundar uma vida interior e quer trilhar o caminho da fé
e da oração. Mas, tem dificuldade de aceitar o
peso das estruturas religiosas. A maioria que se engaja numa
igreja ou grupo religioso o faz porque sabe que precisa do apoio
de uma comunidade para viver a fé e avançar no
caminho de Deus. Mas, de fato, a espiritualidade, ou seja, uma
vida inspirada e conduzida pelo Espírito de Deus existe
em todas as religiões e pode se desenvolver também
para além de qualquer uma delas. Deus não assinou
contrato de exclusividade com nenhum grupo e nem é propriedade
de ninguém.
A Bíblia revela que "o Eterno habita numa luz inacessível
e a Ele, homem algum (de qualquer religião que seja)
jamais viu, nem é capaz de ver"(1 Tm 6, 16). Por outro
lado, afirma que "Deus é amor e toda pessoa que ama conhece
a Deus e vive com Ele" (1 Jo 4, 16).
Deus é mistério. O que as religiões dizem
e ensinam sobre Deus é uma aproximação
parcial. Jesus só falou do Pai e do Reino de Deus em
parábolas. Por isso, precisamos ter muita humildade no
modo de falar de Deus. Não somos donos dele. Se somos
amorosos e humildes, Ele é quem nos possui. Estamos todos
no caminho escuro da fé. E a própria palavra da
Bíblia é, para quem nela crê, "uma lâmpada
que brilha num lugar escuro, até que o dia clareie e
o sol brilhe direto em nossos corações" (2 Pd.
1, 19). Quando, à noite, andamos em um caminho escuro,
uma pequena lanterna nos pode ajudar muito a não pisar
na lama e não errar o caminho. Mas, é uma lanterna
e não um farol. Deus quis assim: a sua própria
Palavra, que é Luz para nossos olhos e alegria para o
nosso coração (Salmo 19), é também
uma palavra humana e por isso limitada. Como cremos que o próprio
Filho de Deus se fez carne em Jesus de Nazaré, plenamente
homem, com as limitações da condição
humana.
O Evangelho conta que Jesus elogiou a fé confiante da
mulher sírio-fenícia que, ao que tudo indica,
tinha uma religião diferente da judaica na qual ele,
Jesus, foi educado. O Senhor aceitou curar o servo do oficial
romano de Cafarnaum, encontrou a mulher samaritana e disse a
ela que, mesmo se a salvação vinha dos judeus,
chegou a hora em que o culto de Deus não ficaria restrito
nem a Jerusalém, nem a Samaria. "Deus é espírito
e os seus adoradores o adorarão em espírito e
verdade"(Jo 4, 23).
De
fato, tanto no mundo, como no interior dos templos e das doutrinas
religiosas, onde Deus se revela, as armas de guerra são
transformadas em foices e enxadas para lavrar a terra e produzir
comida. Hoje, os líderes das religiões e ministros
das Igrejas cristãs, como o papa João Paulo II,
insistem: "Nenhuma guerra é santa ou justa. Só
a Paz é um caminho justo para a humanidade. A Paz é
um nome de Deus" .