AS RELIGIÕES GUERREIRAS E O DEUS DA PAZ 
Marcelo Barros

Como o tempo passa depressa! Parece que foi ontem que dizíamos uns aos outros: "Feliz Ano Novo". Já se vai um mês. Nas cidades grandes, as pessoas se deliciam nos cinemas vendo o Titanic e ajudando o diretor a receber os 280 milhões que ele gastou para filmar essa epopéia. Do lado de fora, o mundo parece, às vezes, um imenso Titanic, afundando em um oceano de violências e intolerâncias humanas. De primeiro de janeiro para cá, centenas de pessoas foram assassinadas na Argélia, dezenas perderam a vida em Chiapas, no México. E no próprio Brasil, aumentam os massacres nossos de cada dia, inaugurados em uma favela de São Paulo, na própria noite de ano novo.

É urgente reconhecermos a responsabilidade das religiões e, especificamente, do cristianismo por esse clima de violência que o mundo respira. Na realidade atual, das guerras que infestam o mundo, mais da metade tem motivos religiosos . Em Israel, judeus contra islamitas; no sul da Índia, hindus contra muçulmanos; na Argélia, muçulmanos fundamentalistas contra não fundamentalistas e não crentes. Na Irlanda, protestantes contra católicos, na ex-Iugoslávia, católicos contra ortodoxos e muçulmanos... As religiões que deveriam ser fermentos de paz têm sido inspiradoras de fanatismo, violência e morte. Se hoje é assim, na história foi pior. Quantos crimes se cometeram em nome de Deus.

Neste ano, a França comemora os quatrocentos anos do "Edito de Nantes"(1598). O país tinha vivido quase quarenta anos de guerra entre católicos e protestantes. Em 1572, na famosa "Noite de São Bartolomeu", que se prolongou por mais dois dias, os católicos assassinaram aproximadamente 70.000 pessoas, protestantes ou suspeitas de protestantismo. A corte francesa exultou. Em Roma, o papa Gregório XII celebrou um culto de ação de graças pela vitória. Mesmo se o filme "A Rainha Margot" exagera, de fato, as ruas de Paris se cobriram de sangue. Para a maioria das pessoas, a fidelidade à sua fé se verificava pelo combate a todos que professassem a fé, de modo diferente. Em uma sociedade na qual a religião legitimava o poder político, confundiam-se os interesses dos reis com o que pensavam ser os interesses de Deus. Somente em 1598, as partes em conflito assinaram um acordo de tolerância entre católicos e protestantes. O Edito de Nantes foi assinado mais por razões políticas do que religiosas. Na Inglaterra, somente no século passado (1829), os católicos conquistaram o direito de viver sem ser discriminados. No Brasil, até poucos anos atrás, ainda se discriminavam protestantes e há quem até hoje, ainda veja as religiões afro-brasileiras como coisas do demônio.

Quem anda pelo interior do Brasil percebe a diversidade cultural e religiosa do povo. Pode também ver que as igrejas não se educaram ainda para conviver com esse pluralismo. Aqui e ali, as guerras religiosas ainda continuam e ainda será necessário que se estabeleçam as bases para que católicos e evangélicos, cristãos e não cristãos assinem um novo e mais amplo "edito de Nantes".

O fundamentalismo é uma doença que surgiu no cristianismo e hoje se espalha por todas as grandes religiões do mundo. Os fundamentalistas, cristãos ou islamitas, judeus ou hindus, acreditam que somente eles interpretam corretamente as Escrituras e que Deus lhes confiou a missão de salvar a verdadeira religião dos inimigos que a ameaçam. Foi assim que, no tempo do nazismo, muitos religiosos sinceros concordaram que se mandassem os judeus para os campos de concentração e extermínio. O jovem judeu que assassinou o primeiro ministro Isaak Rabin para impedir que ele concluísse o acordo de paz com os palestinos declarou estar cumprindo uma missão divina. Como os islamitas que mataram os monges cristãos do Mosteiro de Monte Atlas na Argélia. Cada vez que, num bairro de Goiânia, Palmas ou numa pequena cidade do interior, um padre acha que só os católicos têm direito de expressar a sua fé e passa com a procissão e o carro de som ligado, em frente a uma igreja pentecostal reunida para o seu culto, ele está no mesmo caminho da intolerância e da guerra religiosa. Quando um pastor pentecostal pensa que a fé se transmite aos gritos e quanto mais ruidosa a assembléia, mais anuncia o Evangelho, corre o risco de testemunhar um Deus intransigente e desagradável, completamente oposto ao modo de Jesus se aproximar das pessoas.

Hoje, muita gente sente no coração o desejo de aprofundar uma vida interior e quer trilhar o caminho da fé e da oração. Mas, tem dificuldade de aceitar o peso das estruturas religiosas. A maioria que se engaja numa igreja ou grupo religioso o faz porque sabe que precisa do apoio de uma comunidade para viver a fé e avançar no caminho de Deus. Mas, de fato, a espiritualidade, ou seja, uma vida inspirada e conduzida pelo Espírito de Deus existe em todas as religiões e pode se desenvolver também para além de qualquer uma delas. Deus não assinou contrato de exclusividade com nenhum grupo e nem é propriedade de ninguém.

A Bíblia revela que "o Eterno habita numa luz inacessível e a Ele, homem algum (de qualquer religião que seja) jamais viu, nem é capaz de ver"(1 Tm 6, 16). Por outro lado, afirma que "Deus é amor e toda pessoa que ama conhece a Deus e vive com Ele" (1 Jo 4, 16).

Deus é mistério. O que as religiões dizem e ensinam sobre Deus é uma aproximação parcial. Jesus só falou do Pai e do Reino de Deus em parábolas. Por isso, precisamos ter muita humildade no modo de falar de Deus. Não somos donos dele. Se somos amorosos e humildes, Ele é quem nos possui. Estamos todos no caminho escuro da fé. E a própria palavra da Bíblia é, para quem nela crê, "uma lâmpada que brilha num lugar escuro, até que o dia clareie e o sol brilhe direto em nossos corações" (2 Pd. 1, 19). Quando, à noite, andamos em um caminho escuro, uma pequena lanterna nos pode ajudar muito a não pisar na lama e não errar o caminho. Mas, é uma lanterna e não um farol. Deus quis assim: a sua própria Palavra, que é Luz para nossos olhos e alegria para o nosso coração (Salmo 19), é também uma palavra humana e por isso limitada. Como cremos que o próprio Filho de Deus se fez carne em Jesus de Nazaré, plenamente homem, com as limitações da condição humana.

O Evangelho conta que Jesus elogiou a fé confiante da mulher sírio-fenícia que, ao que tudo indica, tinha uma religião diferente da judaica na qual ele, Jesus, foi educado. O Senhor aceitou curar o servo do oficial romano de Cafarnaum, encontrou a mulher samaritana e disse a ela que, mesmo se a salvação vinha dos judeus, chegou a hora em que o culto de Deus não ficaria restrito nem a Jerusalém, nem a Samaria. "Deus é espírito e os seus adoradores o adorarão em espírito e verdade"(Jo 4, 23).
De fato, tanto no mundo, como no interior dos templos e das doutrinas religiosas, onde Deus se revela, as armas de guerra são transformadas em foices e enxadas para lavrar a terra e produzir comida. Hoje, os líderes das religiões e ministros das Igrejas cristãs, como o papa João Paulo II, insistem: "Nenhuma guerra é santa ou justa. Só a Paz é um caminho justo para a humanidade. A Paz é um nome de Deus" .


 
 



 
 

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