A DIVINDADE SUPREMA LONGE DA TIRANIA
Luiz Carlos Maciel

(Publicado no Caderno Idéias do Jornal do Brasil, em 23/09/2005)
 

A tendência dominante das tradições religiosas é a fundamentalista. Cada uma dessas doutrinas, especialmente na tradição judaico-cristã, está assentada na suposição de um monopólio da verdade. Comunicações diretas com o Absoluto asseguram o privilégio da preferência divina. Parece que a certeza de fazer parte dos escolhidos favorece a certeza da fé e o conseqüente bom comportamento. Essa mesma certeza também estabelece a necessidade de converter os descrentes e os equivocados seguidores de outras crenças. Não dá muito certo, gerando rivalidades, hostilidade, ressentimentos e até ódio.

Um dos efeitos positivos da subversão de valores promovida pela juventude ocidental de algumas décadas atrás, foi a mudança da maneira de ver a questão religiosa. Uma de suas mais poderosas intuições foi a de que a verdade é una mas que os meios de expressá-la são múltiplos e que, portanto, religiões diferentes não são necessariamente excludentes. O interesse dessa geração dirigiu-se, não só para religiões institucionalizadas mas também para a grande variedade de manifestações esotéricas, mágicas ou simplesmente psicoterápicas, do universo esotérico ocidental – e não só para religiões dominantes no Ocidente mas também para os diversos pensamentos religiosos do Oriente.

Essa abertura é necessária para a sanidade. Não se pode conceber a divindade suprema como um tirano que distribui privilégios totais para uns e reprovações, quando não suplícios, para outros. Tal insensatez não passa de uma projeção indébita, seu Deus é criado pelo homem. A visão ecumênica, ao contrário da fundamentalista, é a única justa porque ela supõe que a verdade não é uma propriedade estagnada mas um processo vivo.

Esta visão é uma qualidade que se apresenta de imediato durante a leitura de Encontros com médiuns notáveis, de Waldemar Falcão. Educado na tradição familiar católica, ele acabou por, como diz na introdução ao seu livro, enveredar “pelos caminhos inesgotáveis do espiritualismo ecumênico”. Este é o principal valor desses encontros, seu fundamento, a descontraída abertura para, não só respeitar, como considerar seriamente a contribuição de cada grupo religioso para uma compreensão cada vez maior de nosso lugar no mistério do ser.

O autor relata sua experiência pessoal com seis médiuns bastante diferentes entre si, não apenas em termos pessoais mas também de inclinação doutrinária, fazendo uma síntese de sua visão ecumênica. Essa visão se identifica com o processo de amadurecimento espiritual do autor.

Cada encontro narrado, com objetividade e emoção, é um momento significativo.

O primeiro encontro com Walkyr, médium da umbanda tradicional, mudou a perspectiva jovem católico que, então, começa sua aventura no “espiritualismo ecumênico”.

Depois vem o encontro com Nazaré que seguia a linha da chamada umbanda cruzada, uma mistura de elementos da umbanda brasileira e do candomblé africano. Pois Nazaré, não só tinha retratos do indiano Sathya Sai Baba nas paredes da casa, como também experimentou um encontro pessoal com ele – ou com seu duplo, corpo astral, corpo de sonho, ou como se quiser chamá-lo.

O encontro seguinte é com o médium e paranormal Luiz, que também mistura umbanda e candomblé, mas cuja característica principal eram seus dotes de sensitivo.

O quarto médium notável é Seu Paulo, que trabalhava com o Rei Salomão e o Profeta Jonas e que costumava “descarregar” num mosteiro beneditino, onde seus amigos monges o recebiam com carinho e aspergiam água benta sobre ele.

O encontro seguinte foi com Lourival, um médium dedicado à medicina e ao alívio do sofrimento alheio, sem muitas preocupações doutrinárias. Ele tratou muitos artistas, alguns deles célebres.

O sexto e último encontro, com Célia, parece ser considerado pelo autor como o mais importante de todos. Ela era totalmente agnóstica e materialista, embora seus dotes mediúnicos e paranormais tivessem se manifestado desde os três anos de idade. Até hoje Dona Célia recusa seguir qualquer religião, declara professar a crença no que chama de “a processualística universal” e o seu principal interesse teórico é a Física Quântica.

O ecumenismo do autor, contudo, não para aí. No primeiro Apêndice do livro, não menos importante do ponto de vista da proposta ecumênica, ele inclui entre seus médiuns notáveis, alguns homens que, segundo ele, “embora não possuam poderes paranormais, tem uma sintonia especial com o divino e demonstram esta sintonia em suas atitudes cotidianas de pluralismo, tolerância e ecumenismo”. São eles o Frei Carlos Josaphat; o professor de ioga José Hermógenes; o teólogo Leonardo Boff: o monge Marcelo Barros; o pastor presbiteriano Nehemias Marien; e o físico Patrick Drouot.

No segundo Apêndice, o autor, que também é astrólogo, exibe o mapa de cada um dos médiuns apresentados, tanto os propriamente ditos quanto os “honorários”. Esses mapas não revelam, antes confirmam, as características de cada um deles, já muito bem descritas na parte principal do livro.

Além de seus inegáveis méritos de conteúdo, Encontros com Médiuns Notáveis também se distingue pelo equilíbrio e a leveza de sua forma. Ao contrário do que é comum na literatura espiritualista mais popular, não temos aqui a retórica antiquada e pomposa que dá um ar datado a esses livros, mas uma linguagem moderna, sóbria, simples e elegante. A leitura é fácil e absorvente. Muita gente vai gostar.

Encontros com Homens Notáveis, de Gurdjieff, é uma obra clássica do esoterismo mundial. Este Encontros com Médiuns Notáveis também pode tornar-se um clássico, à sua maneira, de uma nova tradição entre nós, na qual outros livros do gênero compartilhem sua estética de desarmada franqueza e despretensiosa simplicidade.

 


Luiz Carlos Maciel é escritor, teatrólogo e roteirista

 
 



 
 

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