A tendência dominante das tradições religiosas
é a fundamentalista. Cada uma dessas doutrinas, especialmente
na tradição judaico-cristã, está
assentada na suposição de um monopólio
da verdade. Comunicações diretas com o Absoluto
asseguram o privilégio da preferência divina.
Parece que a certeza de fazer parte dos escolhidos favorece
a certeza da fé e o conseqüente bom comportamento.
Essa mesma certeza também estabelece a necessidade
de converter os descrentes e os equivocados seguidores de
outras crenças. Não dá muito certo, gerando
rivalidades, hostilidade, ressentimentos e até ódio.
Um dos efeitos positivos da subversão de valores promovida
pela juventude ocidental de algumas décadas atrás,
foi a mudança da maneira de ver a questão religiosa.
Uma de suas mais poderosas intuições foi a de
que a verdade é una mas que os meios de expressá-la
são múltiplos e que, portanto, religiões
diferentes não são necessariamente excludentes.
O interesse dessa geração dirigiu-se, não
só para religiões institucionalizadas mas também
para a grande variedade de manifestações esotéricas,
mágicas ou simplesmente psicoterápicas, do universo
esotérico ocidental – e não só
para religiões dominantes no Ocidente mas também
para os diversos pensamentos religiosos do Oriente.
Essa abertura é necessária para a sanidade.
Não se pode conceber a divindade suprema como um tirano
que distribui privilégios totais para uns e reprovações,
quando não suplícios, para outros. Tal insensatez
não passa de uma projeção indébita,
seu Deus é criado pelo homem. A visão ecumênica,
ao contrário da fundamentalista, é a única
justa porque ela supõe que a verdade não é
uma propriedade estagnada mas um processo vivo.
Esta visão é uma qualidade que se apresenta
de imediato durante a leitura de Encontros com médiuns
notáveis, de Waldemar Falcão. Educado na tradição
familiar católica, ele acabou por, como diz na introdução
ao seu livro, enveredar “pelos caminhos inesgotáveis
do espiritualismo ecumênico”. Este é o
principal valor desses encontros, seu fundamento, a descontraída
abertura para, não só respeitar, como considerar
seriamente a contribuição de cada grupo religioso
para uma compreensão cada vez maior de nosso lugar
no mistério do ser.
O autor relata sua experiência pessoal com seis médiuns
bastante diferentes entre si, não apenas em termos
pessoais mas também de inclinação doutrinária,
fazendo uma síntese de sua visão ecumênica.
Essa visão se identifica com o processo de amadurecimento
espiritual do autor.
Cada encontro narrado, com objetividade e emoção,
é um momento significativo.
O primeiro encontro com Walkyr, médium da umbanda tradicional,
mudou a perspectiva jovem católico que, então,
começa sua aventura no “espiritualismo ecumênico”.
Depois vem o encontro com Nazaré que seguia a linha
da chamada umbanda cruzada, uma mistura de elementos da umbanda
brasileira e do candomblé africano. Pois Nazaré,
não só tinha retratos do indiano Sathya Sai
Baba nas paredes da casa, como também experimentou
um encontro pessoal com ele – ou com seu duplo, corpo
astral, corpo de sonho, ou como se quiser chamá-lo.
O encontro seguinte é com o médium e paranormal
Luiz, que também mistura umbanda e candomblé,
mas cuja característica principal eram seus dotes de
sensitivo.
O quarto médium notável é Seu Paulo,
que trabalhava com o Rei Salomão e o Profeta Jonas
e que costumava “descarregar” num mosteiro beneditino,
onde seus amigos monges o recebiam com carinho e aspergiam
água benta sobre ele.
O encontro seguinte foi com Lourival, um médium dedicado
à medicina e ao alívio do sofrimento alheio,
sem muitas preocupações doutrinárias.
Ele tratou muitos artistas, alguns deles célebres.
O sexto e último encontro, com Célia, parece
ser considerado pelo autor como o mais importante de todos.
Ela era totalmente agnóstica e materialista, embora
seus dotes mediúnicos e paranormais tivessem se manifestado
desde os três anos de idade. Até hoje Dona Célia
recusa seguir qualquer religião, declara professar
a crença no que chama de “a processualística
universal” e o seu principal interesse teórico
é a Física Quântica.
O ecumenismo do autor, contudo, não para aí.
No primeiro Apêndice do livro, não menos importante
do ponto de vista da proposta ecumênica, ele inclui
entre seus médiuns notáveis, alguns homens que,
segundo ele, “embora não possuam poderes paranormais,
tem uma sintonia especial com o divino e demonstram esta sintonia
em suas atitudes cotidianas de pluralismo, tolerância
e ecumenismo”. São eles o Frei Carlos Josaphat;
o professor de ioga José Hermógenes; o teólogo
Leonardo Boff: o monge Marcelo Barros; o pastor presbiteriano
Nehemias Marien; e o físico Patrick Drouot.
No segundo Apêndice, o autor, que também é
astrólogo, exibe o mapa de cada um dos médiuns
apresentados, tanto os propriamente ditos quanto os “honorários”.
Esses mapas não revelam, antes confirmam, as características
de cada um deles, já muito bem descritas na parte principal
do livro.
Além de seus inegáveis méritos de conteúdo,
Encontros com Médiuns Notáveis também
se distingue pelo equilíbrio e a leveza de sua forma.
Ao contrário do que é comum na literatura espiritualista
mais popular, não temos aqui a retórica antiquada
e pomposa que dá um ar datado a esses livros, mas uma
linguagem moderna, sóbria, simples e elegante. A leitura
é fácil e absorvente. Muita gente vai gostar.
Encontros com Homens Notáveis, de Gurdjieff,
é uma obra clássica do esoterismo mundial. Este
Encontros com Médiuns Notáveis também
pode tornar-se um clássico, à sua maneira, de
uma nova tradição entre nós, na qual
outros livros do gênero compartilhem sua estética
de desarmada franqueza e despretensiosa simplicidade.