DOIS MIL ANOS EM UMA NOITE
Marcelo Barros

Em diversos lugares do mundo, preparam-se espetáculos de luzes e fogos para a noite de 31 de dezembro. Essa magia do ano novo, as Igrejas cristãs já começaram a celebrar na noite de Natal. Em Roma, o papa abriu a porta que, de 50 em 50 anos, inicia os ritos do Jubileu: tempo de lembrar o caminho percorrido pelo cristianismo nesses 2000 anos, verificar o seu estado de saúde e desejar que, no novo milênio, seja cada vez mais fiel à sua vocação de servir à humanidade.

1 – “ERA UMA VEZ...”

(PRIMEIRA ETAPA DE UMA HISTÓRIA: A SEITA JUDAICO-CRISTÃ)

    Um homem judeu chamado Jesus de Nazaré. Ninguém mais contesta a sua existência. Sabe-se que viveu nos primeiros anos da nossa era e se apresentou a seus compatriotas como porta-voz dos céus. Anunciou que  Deus tem um projeto de vida nova e unidade para toda a humanidade. Chamava isso de “Reino de Deus”. Muitos sentiram-se ameaçados por essa proposta. Por motivos religiosos e políticos, Jesus foi condenado à cruz, suplício que os romanos reservavam aos escravos rebeldes. Os discípulos garantem que, após a morte, Ele se mostrou vivo e lhes deu o seu Espírito. Jesus não quis fundar uma nova religião. Ele e os apóstolos nasceram e morreram no Judaísmo. A proposta de Jesus era abrir a fé judaica a toda a humanidade, acolhendo simplesmente a proposta do amor de Deus, na abertura ao outro e na fraternidade com todos os seres humanos. Essa proposta é uma crítica ao poder de uns sobre os outros e testemunha que Deus ama loucamente todo ser humano e vem unir-se a todos, de quaisquer culturas e religiões. De Graça.
    Os chefes judeus da época sofriam perseguições políticas e pressões culturais do Império Romano. Sentiram mais necessidade de fechar as fronteiras da fé do que de abri-las. Expulsaram das suas comunidades os judeus, seguidores de Jesus. A maior parte desses era de gente pobre do campo, avessa à cultura grega que dominava as cidades. Reuniam-se em comunidades abertas, às quais deram o nome de “Igrejas”. Ali, todos eram iguais.  Homens e mulheres, judeus e estrangeiros, igualmente chamados a ser porta-vozes de Deus, isto é,  profetas.


2 – “E O MUNDO TODO FERMENTOU”
(SEGUNDA ETAPA: A RELIGIÃO CRISTÃ)

 
   No ano 70, Roma destruiu Jerusalém e perseguiu os judeus. Os israelitas tiveram de fugir do seu país e se estabelecer nas cidades do mundo greco-romano. Muitos cristãos, nascidos no mundo judeu, seguiram esse destino. Jesus expressou a Palavra de Deus na língua e em termos culturais do seu povo. Como traduzir isso para outras culturas e costumes?  Essa é uma das tarefas da segunda geração de discípulos. Paulo, um fariseu convertido a Jesus como Cristo, ou seja,  “Consagrado”, começou essa adaptação da proposta de Jesus ao mundo urbano e à civilização ambiente.

    Pouco a pouco, a fé dos discípulos de Jesus se torna uma nova religião. Cria-se uma estrutura institucional e um conjunto de doutrinas e rituais. A forma de poder e as normas que regulam a vida comunitária são parecidas com as do Império. A reflexão doutrinal cristã passa a utilizar as categorias do pensamento grego. Os ritos, herdados do judaísmo, misturam-se com costumes e cerimônias de religiões pagãs. O caminho das comunidades crentes em Jesus se torna uma religião reconhecida e é, pouco a pouco, assumida como a religião oficial de muitos povos e países.

    A partir do século II, alguns pastores fizeram um trabalho admirável para adaptar a mensagem evangélica, vinda do Oriente Médio, à linguagem e culturas ocidentais. O resultado dessa síntese cultural e intelectual modelou a civilização européia. Com altos e baixos, vigorou por mais de mil anos. No século XVI, alguns missionários tentaram fazer o mesmo esforço de tradução cultural do cristianismo  ao continente ameríndio. Outros buscaram inserir o cristianismo nas grandes culturas asiáticas. As autoridades romanas  proibiram essa inculturação. Nos últimos 1000 anos, a Igreja Católica se tornou como alguém que veste uma roupa única, fala uma só língua e come apenas um tipo de prato, convicta de que qualquer mudança é traição. A rigidez cultural e conflitos de poder dividiram o cristianismo em um sem número de Igrejas. A diversidade, dom de Deus, foi rejeitada; instalou-se a divisão.

    As Igrejas ortodoxas traduziram melhor a mensagem cristã em suas culturas e nações. As evangélicas devolveram ao povo cristão o acesso simples e direto à Bíblia e revalorizaram o sacerdócio de todas as pessoas batizadas. Mas, também essas igrejas nem sempre souberam reformar-se permanentemente. Atualmente, com pequenas variações, há um modelo único de cristianismo: a mesma doutrina e uma só lei moral, baseada no Evangelho, mas concretizada por valores culturais ocidentais.

 
3 – TOMANDO O PULSO DA HISTÓRIA
(O CRISTIANISMO EM HORA DE BALANÇO E AVALIAÇÃO)

    Nos países ocidentais, a cultura moderna mantém do cristianismo apenas uma vaga recordação de linguagem, algumas festas e costumes folclóricos. Apesar disso, a cultura nascida da fé cristã ocidentalizada, ainda se espalha pelo mundo inteiro. Trouxe à humanidade grandes valores e contribuições culturais e espirituais. A Ética bíblica que o cristianismo internacionalizou provocou, mais explicitamente do que outros caminhos espirituais, a consciência da dignidade da pessoa e a Declaração dos Direitos Humanos. A fé cristã espalhou pelo mundo o conceito da caridade (solidariedade social) e da igualdade de todos, homens e  mulheres, de todas as classes, raças e culturas. Entretanto, muitas vezes, a prática ficou distante da teoria. A transformação da mensagem cristã em religião civil e nacional em muitos países contribuiu muito para difundir o Evangelho e tornar possível o testemunho do Reino de Deus por parte de pessoas verdadeiramente admiráveis e comunidades fiéis. Mas, por outro lado, essa institucionalização, que começou no século IV, muitas vezes, esvaziou  a fé do seu conteúdo mais original e profundo. Até que ponto, ainda se pode reconhecer o espírito de Jesus e sua proposta evangélica na doutrina e forma de ser das Igrejas?

    O mundo está dividido e ferido por muitas guerras. No lugar de lançar pontes, o cristianismo ou, a cultura que ele gerou, tem dividido: o homem e a mulher, o ser humano e a natureza, a inteligência e a sensibilidade, a ciência e a espiritualidade, a esfera pessoal e a dimensão política.

    As Igrejas podem ser responsabilizadas pelo tipo de sociedade injusta que criaram, ou, ao menos, legitimaram. O mundo está organizado na base de uma injustiça estrutural. Os países, responsáveis pela exploração e silenciosa condenação à morte de dois terços da humanidade são de tradição  “cristã”. As cédulas de dólar têm como inscrição “Nós confiamos em Deus”. Até aqui, nenhuma Igreja esclareceu que esse não é o Deus dos Evangelhos, a quem Jesus chama “Paizinho”. O papa João Paulo II escreveu: “Para ser fiel a Jesus, a Igreja deve ser “Igreja dos pobres”. Ela é dos pobres, não simplesmente quando  os pobres participam da Igreja, mas quando ela assume verdadeira e corajosamente a causa e as lutas dos pobres” (Carta “Laborem Exercens”). Basta abrir os olhos e ver que isso ainda está longe de acontecer.

    Hoje, existe um ressurgir de uma grande vertente espiritual. Mas, não parece caminhar no sentido de uma valorização das Igrejas e de suas estruturas... As pessoas querem uma proposta espiritual acessível a todos e mais profundamente ligada à vida.

 
4 – PERSPECTIVAS PARA O NOVO MILÊNIO
   
    Hoje ainda, o cristianismo aparece como religião “civil” de quase um terço da humanidade. A partir dos últimos 50 anos, o cristianismo tem mais crentes no terceiro mundo do que no primeiro. Torna-se fé dos mais pobres do mundo e menos a religião das sociedades modernas. Isso preocupa a muitas autoridades eclesiásticas que falam em recuperar uma cultura cristã e “reevangelizar” o mundo. Pregam a cruz de Jesus, mas não aceitam que a Igreja, considerada discípula de Jesus, tenha o mesmo destino do seu mestre: sofra o abandono e a morte na cruz. Florescendo mais na África e América Latina do que na Europa, o cristianismo dessa transição de milênio precisa retomar o espírito das origens, aceitar ser vivido em comunidades pequenas e de pouca influência no mundo. Ao que tudo indica, a Igreja dos espetáculos televisivos e das missas aeróbicas é uma moda passageira e não propõe a boa notícia do Reino de Deus.

    Uma nova consciência das culturas oprimidas exige do cristianismo que se torne menos ocidental, romano, anglicano, ou americano para inserir-se de modo fraterno e mais solidário no universo indígena, ou negro. Não precisa entrar na Ásia, nem converter ninguém de outra religião, mas se quiser colaborar com a paz e a justiça e inserir-se nas culturas asiáticas, deve assumi-las como elas são e tomar decididamente o jeito de ser hindu ou chinês. Só assim, ele retomará a intuição original de Jesus: formará comunidades e continuará tendo características de instituição religiosa, mas esta será apenas instrumento para um testemunho: Deus é Amor, Doação e  Vida. Com Jesus morreu na cruz para nunca mais ser chamado de “todo-poderoso”, nem identificado com alguém que exclui. O seu Espírito está presente e atua em todas as religiões e culturas. É essencial ao próprio caminho cristão reconhecer a presença do Espírito em todo o universo, buscá-lo na relação com o outro, no diálogo com o diferente e engajar-se no caminho da paz e da justiça.

    Para ser acreditável, toda Igreja cristã é convidada a retomar a proposta dos bispos católicos latino-americanos, na Conferência de Medellin (1968): ser uma Igreja pobre e despojada do poder; missionária (em diálogo mais profundo e afetuoso com o mundo) e pascal (mais renovada e renovadora); aberta a toda humanidade para ser espaço de diálogo e instrumento de comunhão entre as mais diversas culturas e religiões.

    Dom Helder Câmara dizia: "O Ano 2.000 sem miséria é, antes de tudo, um estímulo ao otimismo, uma crença no que o homem, quando quer, é capaz de fazer, e Deus ajuda!"

 
 


 
 

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