Já
me empenhei com mais afinco no passado para responder a desinformações
a respeito da astrologia. Mas, conduzido pelos meus dedos, cá
estou em frente ao teclado tratando do assunto mais uma vez.
Vamos lá.
Lamentavelmente não pude comparecer a um evento acontecido
no Planetário da Gávea, no Rio de Janeiro, onde
astrônomos deram, digamos assim, sua opinião sobre
as “bases científicas da astrologia” ou algo
assemelhado, em um evento chamado “A Astrologia na visão
da Astronomia”. Já soube, porém, que a parcialidade
imperou na palestra, onde um astrônomo e um biólogo
(!) pinçaram trechos de horóscopos de jornais
e revistas e os leram em tom irônico, no intuito de ridicularizar
a astrologia, e os astrólogos (vários) presentes
foram obrigados a aguardar o término da gaiata apresentação
astronômica, para só então terem acesso
ao microfone destinado às perguntas do público.
É claro que o mal estar foi geral e ficou de ser marcado
um novo encontro no qual os astrólogos teriam um espaço
mais igualitário e democrático para se defenderem
das desinformações apresentadas pelos co-irmãos.
Tentei imaginar uma analogia com a classe dos economistas, onde
estes organizariam uma palestra intitulada “A Ecologia
na visão da Economia”. Que conclusões brotariam
de temas tão vibrantes e oportunos? Certamente os economistas
considerariam os ecologistas como "sonhadores" e outros
adjetivos menos nobres e ninguém sairia deste encontro
com seu saber enriquecido. Lembrei-me de uma brincadeira dos
tempos de escola, a tese de dissertação que só
tinha título: “A influência do galho seco
na vida social do macaco”. Um tema tão relevante
quanto os anteriores.
Há pouco tempo atrás toda a mídia divulgou
maciçamente um “estudo científico”
ao qual depois se descobriu que faltavam numerosos parâmetros
para que fosse realmente considerado “científico”,
cujo título retomava a velha obsessão: “Ciência
prova que astrologia não funciona”.
Naquele momento me ocorreu que, se invertêssemos sujeito
e objeto desta frase, e juntássemos a ela alguns exemplares
de fotos de atrocidades cometidas pela “ciência”
desde que esta suposta pesquisa foi iniciada (ao que parece
em 1958), poderíamos também afirmar: “Astrologia
prova que ciência não funciona”. Uma afirmação
tão leviana quanto a outra.
Há poucos anos atrás, em um dos eventos anuais
que a classe astrológica organiza no Rio de Janeiro,
convidamos astrônomos para uma mesa onde estariam três
profissionais indicados por eles junto a três astrólogos,
para debaterem semelhanças e diferenças. No final,
entre mortos e feridos, salvaram-se todos. Os astrônomos
ficaram surpresos com o conhecimento que “nós”
tínhamos de astronomia (é matéria básica
no currículo de todas as boas escolas — e são
muitas — de astrologia), travaram um embate bem-humorado
e intenso com seus co-irmãos astrólogos e só
se embaraçaram no final, quando perguntados a respeito
do livro de um astrônomo inglês respeitado no mundo
acadêmico que se chama “Astrologia — a evidência
científica”, editado por mim e publicado pela Editora
Nova Era. Um dos nossos co-irmãos declarou de público
que “não tinha lido e nem ia ler” o livro.
Uma atitude nada científica, diga-se.
Essa questão da astrologia ser ou não uma ciência,
a esta altura dos sindicatos da classe organizados em diversos
estados do Brasil, torna-se um debate semelhante ao do sexo
dos anjos dos antigos próceres católicos. Não
existe esta ânsia da comprovação científica
na maioria dos profissionais de astrologia no país. Existe,
sim, na comprovação empírica de todos os
que se dedicam ao Aconselhamento Astrológico, a certeza
de que ela funciona, diariamente, em suas práticas.
Existe também uma convicção entre a maioria
dos astrólogos de que trabalhamos com um conhecimento
que é um misto de ciência e arte, engenharia e
poesia, estatística e intuição, estudo
e interpretação. Eu não ficaria ofendido
se quisessem enquadrar a astrologia como arte... Seria mais
uma arte a incorporar ao meu currículo, e não
mudaria em nada meu envolvimento com o estudo dos céus,
nem sua eficácia e utilidade na minha vida e na de um
número significativo de pessoas.
A imagem do astrólogo de turbante, escondido atrás
de um pseudônimo exótico, faz parte de um passado
distante e folclórico. Se faltasse fundamento à
astrologia, ela certamente não teria sobrevivido tanto
tempo no imaginário popular, remontando a um passado
muito mais distante do que o tempo de existência da nossa
civilização ocidental. Além disso, respeitada
(perdoe-me, mestre, por citá-lo novamente para defender
a Velha Senhora...) por pensadores da estatura de Carl Jung,
que oferecia a cadeira de astrologia como matéria eletiva
em seu instituto em Zurich e era um aplicado estudante do tema.
Como diz a sabedoria popular, seria difícil enganar tantas
pessoas por tanto tempo...
A maioria dos astrólogos de hoje em dia se origina de
profissionais de nível superior das mais diversas formações,
com talvez um predomínio maior de formados nas ciências
humanas e sociais. Tentar enxergar qualquer resquício
de charlatanismo ou má fé no trabalho destas pessoas
é algo tão descabido quanto injustificável
a esta altura do século 21. É uma classe profissional
já bastante organizada, com sindicatos reconhecidos em
vários estados do país, e debatendo a criação
de uma entidade de nível nacional.
O atual estágio de organização da astrologia
profissional no Rio de Janeiro já mereceu uma tese de
antropologia social escrita pelo prematuramente falecido professor
Rodolfo Vilhena e publicada pela Editora Zahar sob o título
de “O mundo da astrologia”.
A questão com a astronomia é, em essência,
um estranhamento de mão única. A hostilidade tem
sempre partido dos astrônomos, e não dos astrólogos.
Todo astrólogo estuda, conhece a fundo e certamente aprecia
a astronomia, pois ela é uma das bases do corpo do conhecimento
astrológico. As efemérides planetárias
utilizadas para o cálculo de um mapa astral são
elaboradas e disponibilizadas por observatórios e planetários
em todo o mundo.
Existem respeitosas exceções na classe dos astrônomos,
como o autor do livro há pouco citado, Percy Seymour,
que já foi Conferencista Chefe do Real Observatório
de Greenwich e é hoje Conferencista Chefe em Astronomia
da Universidade de Plymouth, no sul da Inglaterra. No Brasil
também temos vários amigos astrônomos, que
interagem com os astrólogos sem assombros em congressos
e seminários e sempre enriquecem nosso saber com suas
participações. Devido a este lamentável
preconceito ainda existente, é recomendável mantê-los
no anonimato. Uma pena, porque no final das contas, somos todos,
astrônomos e astrólogos, apaixonados pelo mesmo
tema: o céu, seus corpos e seus significados.
Uma outra exceção digna de ser mencionada vem
da área religiosa: Frei Carlos Josaphat, um jovem frade
dominicano de mais de oitenta anos de idade que foi um dos primeiros
a serem exilados logo após o golpe de 1964, escreveu
recentemente um livro publicado pelas Edições
Loyola chamado “Tomás de Aquino
e a Nova Era do Espírito”, no qual, apoiado
nos estudos de Tomás, faz incursões corajosas
pelos conceitos de new age e de espiritualidade, e dedica um
capítulo especial à astrologia, concluindo por
defender “um intercâmbio sadio e aberto com os estudiosos
da parte mais bela da obra visível de Deus”. Estes
estudiosos somos nós, os astrólogos. Obrigado,
Frei Carlos. Bela lição para muitos intolerantes
de plantão.
A origem e a solução deste embate se encontra
na diferença dos sufixos: a nomia
se ocupa das medições, das estatísticas
e, segundo o Aurélio, a astronomia “trata da constituição,
da posição relativa, e do movimento dos astros”.
Já a logia se ocupa dos significados,
dos símbolos, e a astrologia, segundo o mesmo dicionário,
se ocupa “da influência dos astros (...) e dos signos
no destino e no comportamento dos homens”.
Para terminar, reparem que o título desta matéria
não tem ponto de exclamação. Não
é um grito de revolta ou de impaciência, embora
pudesse assim ser, pelo tanto que tentam repetidamente desacreditar
a astrologia. É uma solicitação, se assim
o quiserem. Ou até mesmo um pedido, sussurrado com uma
suavidade joãogilbertiana. Àqueles que quiserem
se aproximar e interagir, venham de qual ramo do conhecimento
vierem, as nossas boas vindas. Aos que não quiserem,
que não percam mais tempo tentando desacreditar a astrologia.
Ela está aí há mais de seis mil anos, e
as vidas de seus detratores são muito curtas frente à
longevidade dos astros e de seus significados simbólicos.
Deixem a astrologia em paz.