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“Existe o invisível. Ele é parte do visível”,
afirma o teólogo Leonardo Boff no prefácio de
Encontros com médiuns
notáveis, de Waldemar Falcão.
Boff tem razão: apenas para a modernidade ocidental,
regida pelos imperativos de uma racionalidade excessivamente
centrada na causalidade final e eficiente das coisas, o “invisível”
é relegado à lata de lixo da História.
Sabemos, no entanto, que a experiência grega do real
traduzia-se na palavra ousia, que significa a vigência
de uma coisa. O real não era da ordem do oculto, e
sim do que vigorava no presente, mesmo que não estivesse
visível. Algo poderia não estar visível
e ainda assim vigorar, podendo em conseqüência
ser contemplado ou teorizado.
A ousia terminou, entretanto, sendo progressivamente
definida pela contemplação do mundo externo,
objetivado pela consciência despertada do indivíduo,
e não a partir do inconsciente. O pensamento racional
e a abstração intelectual pressupõem
o estado de vigília da consciência no empenho
de determinação objetiva do mundo. Finalmente,
no império da visibilidade absoluta, tudo deve ser
visto e controlado, senão pelo olhar do observador,
ao menos pelo cálculo matemático.
Fascinados pela realização técnica do
mundo, somos levados civilizatoriamente a esquecer que algo
se retrai em tudo que aparece. A idéia moderna de natureza
incorpora o sentido grego de “desabrochar” e “mostrar-se”
(physis), mas recalca a dimensão antiga do
“ocultar-se” (mysis), ou seja, de um
invisível ou um “sobrenatural” de muitos
aspectos. A partir deste, prosperam as religiões, dando-lhe
os nomes que a cultura propicia. O problema é que as
religiões, instituídas em igrejas, não
tardam em combinar seus paramentos litúrgicos com os
mantos do monopólio estatal ou das gestões empresariais.
O extermínio físico dos “pagãos”,
o genocídio inominável dos ditos “incréus”,
nunca pareceu atrapalhar a exaltação da santidade.
Hoje, quando arrefece o poder eclesiástico junto às
massas, proliferam os arrependimentos, os pedidos de perdão,
numa verdadeira lavagem pública da História.
Mas a atração pelo invisível ––
subsumida na idéia de espiritualidade ––
permanece, rapidamente capitalizada por formas emergentes
de esperteza e exploração dos consumidores de
esperança.
Na verdade, a esperteza e a exploração rondam
sempre as regiões da crença, seja da parte de
instituições publicamente consagradas, seja
de livres-charlatães, seja de uma certa literatura
de auto-ajuda. Daí, o interesse de livros honestos,
como este de Waldemar Falcão, também apresentado
pelo físico e escritor francês Patrick Drouot:
“Não se trata somente de um prazer, mas sim de
um dever encorajar livros como este em um mundo que se encontra
desesperadamente em busca de sua origem perdida, de sua identidade
e de seu futuro”.
Falcão é músico, editor, tradutor, escritor
e espiritualista. Seu percurso pelos caminhos da espiritualidade
levou-o a “encontros com médiuns notáveis”
(expressão inspirada em título de livro do famoso
místico Gurdjieff, que resultou em belo filme de Peter
Brook), seis dos quais são por ele apresentados. Elementos
biográficos, entrevistas e narração de
casos alternam-se, tornando o livro de Falcão muito
atraente para o público-leitor.
É surpreendente observar como o vocabulário
da física contemporânea começa a penetrar
no discurso de alguns dos sujeitos de estados visionários
e mediúnicos. Por exemplo, a médium Célia,
falando a um grupo: “Vou perguntar a vocês: desejo
ocupa lugar? Não ocupa. Nem tempo, não é?
Então, se o desejo não ocupa lugar nem tempo,
ele é um campo quântico (...) Qual é o
trabalho da espiritualidade? Num trabalho de sinestesia ––
sinestesia quer dizer captação de uma emoção
ou de um desejo ––, a espiritualidade transforma
este campo quântico do desejo de vocês em graus
de liberdade dinâmica (...)”. E é um discurso
não contraditado pelo físico Drouot: “A
percepção do tempo não-linear deflagra
uma transformação espiritual”.
Na realidade, trata-se apenas de um novo vocabulário.
Nada nos garante que a física dê efetivamente
conta da complexidade desses fenômenos, em que a fé
e um tipo particular de interação ––
tanto com o natural quanto com pessoas especiais ––
são variáveis extracientíficas. Mas cada
época privilegia, em termos de credibilidade, uma linguagem
própria. Por isto, é importante saber que há
pesquisadores da aproximação entre o mundo científico
e o espiritual.
Importante é igualmente dar-se conta de que a fé
transcende os valores arraigados e as próprias confissões
religiosas, como frisa a médium Célia: “No
dia em que todas as religiões se unirem numa única
crença chamada 'Amor', eu serei a primeira discípula
desta religião. Enquanto isto não acontece,
eu fico quieta no meu canto, respeitando todas as crenças,
mas não me engajando em nenhuma”. E assim, de
repente, numa frase despretensiosa, se resume todo o programa
do pluralismo dito pós-moderno.
É nessa falta de pretensão, aliada à
clara presença da honestidade nos relatos extraordinários,
que consiste grande parte do encanto do livro de Waldemar
Falcão. O leitor tem chances de sair convicto de que
o exercício da fé prescinde das máquinas
de arrecadação (os espiritualistas descritos
escapam à razão financeira) operadas por religiões
que trocam o fundamento do sagrado pela isenção
fiscal; prescinde do ouro e do mármore dos templos;
prescinde da pretensão da verdade absoluta. Encontrar-se
com tais convicções é, em si mesmo, um
evento notável.
Muniz
Sodré é professor da Escola de Comunicação
da UFRJ
e diretor da Fundação Biblioteca
Nacional
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