DIÁLOGOS COM O EXTRAORDINÁRIO
Muniz Sodré

(Publicado no Caderno Prosa & Verso de O Globo, em 22/10/2005)
 

“Existe o invisível. Ele é parte do visível”, afirma o teólogo Leonardo Boff no prefácio de Encontros com médiuns notáveis, de Waldemar Falcão. Boff tem razão: apenas para a modernidade ocidental, regida pelos imperativos de uma racionalidade excessivamente centrada na causalidade final e eficiente das coisas, o “invisível” é relegado à lata de lixo da História. Sabemos, no entanto, que a experiência grega do real traduzia-se na palavra ousia, que significa a vigência de uma coisa. O real não era da ordem do oculto, e sim do que vigorava no presente, mesmo que não estivesse visível. Algo poderia não estar visível e ainda assim vigorar, podendo em conseqüência ser contemplado ou teorizado.

A ousia terminou, entretanto, sendo progressivamente definida pela contemplação do mundo externo, objetivado pela consciência despertada do indivíduo, e não a partir do inconsciente. O pensamento racional e a abstração intelectual pressupõem o estado de vigília da consciência no empenho de determinação objetiva do mundo. Finalmente, no império da visibilidade absoluta, tudo deve ser visto e controlado, senão pelo olhar do observador, ao menos pelo cálculo matemático.

Fascinados pela realização técnica do mundo, somos levados civilizatoriamente a esquecer que algo se retrai em tudo que aparece. A idéia moderna de natureza incorpora o sentido grego de “desabrochar” e “mostrar-se” (physis), mas recalca a dimensão antiga do “ocultar-se” (mysis), ou seja, de um invisível ou um “sobrenatural” de muitos aspectos. A partir deste, prosperam as religiões, dando-lhe os nomes que a cultura propicia. O problema é que as religiões, instituídas em igrejas, não tardam em combinar seus paramentos litúrgicos com os mantos do monopólio estatal ou das gestões empresariais. O extermínio físico dos “pagãos”, o genocídio inominável dos ditos “incréus”, nunca pareceu atrapalhar a exaltação da santidade. Hoje, quando arrefece o poder eclesiástico junto às massas, proliferam os arrependimentos, os pedidos de perdão, numa verdadeira lavagem pública da História. Mas a atração pelo invisível –– subsumida na idéia de espiritualidade –– permanece, rapidamente capitalizada por formas emergentes de esperteza e exploração dos consumidores de esperança.

Na verdade, a esperteza e a exploração rondam sempre as regiões da crença, seja da parte de instituições publicamente consagradas, seja de livres-charlatães, seja de uma certa literatura de auto-ajuda. Daí, o interesse de livros honestos, como este de Waldemar Falcão, também apresentado pelo físico e escritor francês Patrick Drouot: “Não se trata somente de um prazer, mas sim de um dever encorajar livros como este em um mundo que se encontra desesperadamente em busca de sua origem perdida, de sua identidade e de seu futuro”.

Falcão é músico, editor, tradutor, escritor e espiritualista. Seu percurso pelos caminhos da espiritualidade levou-o a “encontros com médiuns notáveis” (expressão inspirada em título de livro do famoso místico Gurdjieff, que resultou em belo filme de Peter Brook), seis dos quais são por ele apresentados. Elementos biográficos, entrevistas e narração de casos alternam-se, tornando o livro de Falcão muito atraente para o público-leitor.

É surpreendente observar como o vocabulário da física contemporânea começa a penetrar no discurso de alguns dos sujeitos de estados visionários e mediúnicos. Por exemplo, a médium Célia, falando a um grupo: “Vou perguntar a vocês: desejo ocupa lugar? Não ocupa. Nem tempo, não é? Então, se o desejo não ocupa lugar nem tempo, ele é um campo quântico (...) Qual é o trabalho da espiritualidade? Num trabalho de sinestesia –– sinestesia quer dizer captação de uma emoção ou de um desejo ––, a espiritualidade transforma este campo quântico do desejo de vocês em graus de liberdade dinâmica (...)”. E é um discurso não contraditado pelo físico Drouot: “A percepção do tempo não-linear deflagra uma transformação espiritual”.

Na realidade, trata-se apenas de um novo vocabulário. Nada nos garante que a física dê efetivamente conta da complexidade desses fenômenos, em que a fé e um tipo particular de interação –– tanto com o natural quanto com pessoas especiais –– são variáveis extracientíficas. Mas cada época privilegia, em termos de credibilidade, uma linguagem própria. Por isto, é importante saber que há pesquisadores da aproximação entre o mundo científico e o espiritual.

Importante é igualmente dar-se conta de que a fé transcende os valores arraigados e as próprias confissões religiosas, como frisa a médium Célia: “No dia em que todas as religiões se unirem numa única crença chamada 'Amor', eu serei a primeira discípula desta religião. Enquanto isto não acontece, eu fico quieta no meu canto, respeitando todas as crenças, mas não me engajando em nenhuma”. E assim, de repente, numa frase despretensiosa, se resume todo o programa do pluralismo dito pós-moderno.

É nessa falta de pretensão, aliada à clara presença da honestidade nos relatos extraordinários, que consiste grande parte do encanto do livro de Waldemar Falcão. O leitor tem chances de sair convicto de que o exercício da fé prescinde das máquinas de arrecadação (os espiritualistas descritos escapam à razão financeira) operadas por religiões que trocam o fundamento do sagrado pela isenção fiscal; prescinde do ouro e do mármore dos templos; prescinde da pretensão da verdade absoluta. Encontrar-se com tais convicções é, em si mesmo, um evento notável.


Muniz Sodré é professor da Escola de Comunicação da UFRJ
e diretor da Fundação Biblioteca Nacional



 
 



 
 

Design: Carlos Hollanda