Waldemar Falcão nunca tinha pensado em se tornar escritor.
É músico profissional desde 1975, quando fez
exame para a Ordem dos Músicos do Brasil como flautista.
Tinha a astrologia como hobby, até que, em 1987, incentivado
por amigos, resolveu profissionalizar a atividade, que passou
a dividir com a de músico e produtor fonográfico.
A literatura sempre esteve presente em sua vida, primeiro
por influência do pai, advogado e poeta, depois por
uma capacidade de leitura que o faz até hoje ler três
ou quatro livros ao mesmo tempo. Em 1995, foi convidado a
assumir a Editora Nova Era, a mesma pela qual publica agora
seu primeiro trabalho como escritor. Atuou como editor até
o ano de 2000, quando migrou para a Internet para ser editor
on-line, sem abandonar as atividades de músico, astrólogo
e tradutor.
P:
Comece fornecendo algumas informações básicas
a seu respeito.
R: Eu sou músico, astrólogo e escritor. Divido-me
entre estes três ofícios já há
muitos anos, mas só agora, com a publicação
do meu primeiro livro, é que assumo a identidade de
escritor; anteriormente eu me considerava um articulista,
já que colaboro com jornais e publicações
especializadas nas minhas áreas de atuação,
principalmente em jornais de música e astrologia. Atuo
bastante também no meio editorial, como tradutor, revisor
e editor.
P: Como surgiu a idéia de escrever “Encontros
com médiuns notáveis”?
R: Na verdade, a idéia não surgiu de um momento
para o outro, ela foi amadurecendo durante muitos anos. Eu
tive a sorte de conhecer estas pessoas retratadas no livro
ao longo da minha vida, nas situações as mais
diversas. De alguns anos para cá, o projeto de escrever
sobre elas foi se definindo na minha cabeça; primeiro
surgiu o título, inspirado num livro de Gurdjieff que
se chama “Encontros com homens notáveis”.
Depois, aos poucos, foi-se formando na minha cabeça
a forma de estruturar a narrativa. Pode-se até dizer
que durante o ano de 2004, quando escrevi o livro, que ele
foi se definindo conforme eu o escrevia.
P: Leonardo Boff afirma no prefácio que você
também é médium. Que experiências
você teve neste sentido?
R: Primeiro de tudo, deixe-me esclarecer que eu sou um médium
absolutamente comum, como o são todas as pessoas. Nem
de longe posso me comparar às pessoas retratadas no
livro, que são o que chamamos no jargão paranormal
de “médiuns espontâneos” ou “médiuns
de berço”. Estes já nascem com o dom plenamente
maduro e não precisam de nenhuma iniciação
ou desenvolvimento da mediunidade. Eu trabalhei durante quinze
anos em um terreiro de umbanda, fazendo parte do corpo de
médiuns da Casa. Sou um médium “médio”,
se você me desculpa o trocadilho. Não vejo nem
ouço nada que esteja além dos nossos cinco sentidos
convencionais. As experiências por que passei foram
todas produzidas pelas pessoas que fazem parte do livro, estes
sim, médiuns raros e com dons especialíssimos.
P: Várias celebridades do meio artístico e intelectual
são citadas nas histórias do seu livro. Isto
foi um meio de atrair a atenção do público?
R: Não, de jeito nenhum. Os artistas e intelectuais
citados no texto são pessoas que tinham um relacionamento
com alguns destes paranormais e por isso acabaram incluídos
nas histórias. Alguns são realmente meus amigos
pessoais, como Gilberto Gil, Leonardo Boff, Nando Carneiro,
Patrick Drouot e Ney Matogrosso, por exemplo; outros, como
Miúcha e Ana de Hollanda, participaram de eventos importantes
para mim e ficaram por isso marcadas no meu coração;
outros ainda são pessoas com quem tenho um relacionamento
profissional mais formal, como Paulo Jobim, Chico Buarque
e Milton Nascimento. O ponto comum entre eles é que
todos foram extremamente gentis e receptivos em relação
ao trabalho, autorizando a menção de seus nomes
com extrema boa vontade, sendo que alguns até com um
entusiasmo contagiante. Minha eterna gratidão a todos
eles.
P: Porque a inclusão, no Apêndice 1, de pessoas
que não são realmente médiuns, e porque
exatamente estas pessoas foram chamadas de “médiuns
honorários”?
R: Veja, minha intenção maior ao escrever o
livro — além de narrar as experiências
notáveis que testemunhei — foi a de fazer uma
declaração de amor ao espírito ecumênico,
de incentivar e louvar a tolerância e a convivência
entre todas as crenças e religiões, porque acredito
que este seja o único caminho para se chegar à
paz entre os homens. Por isso a idéia de homenagear
com pequeníssimos perfis biográficos estes que
chamei de “médiuns honorários” e
que na verdade são pessoas de uma abertura total para
a questão ecumênica, pessoas sem dogmas e sem
preconceitos, interessadas em todas as manifestações
espirituais. Nas pequenas histórias que conto de cada
um estão presentes este espírito aberto e tolerante
de diálogo e o respeito que cada um tem pelas outras
crenças.
P: Qual é a sua religião?
R: Hoje em dia, assim como a Célia (uma das médiuns
retratadas no livro), eu me declaro um “aprendiz de
universalista”. Fui educado na religião católica
até meus dezessete anos de idade, quando conheci a
umbanda e me envolvi durante quinze anos com sua prática.
Acredito inclusive que tenha sido a própria umbanda
que tenha me inspirado este ecumenismo, já que ela
é uma religião que possui elementos de pelo
menos cinco outras religiões, e tem a tolerância
e o ecumenismo como suas principais bandeiras. Atualmente
tenho amigos em todas as correntes religiosas: católicos,
umbandistas, hinduístas, espíritas kardecistas,
muçulmanos, protestantes, hare krishnas, judeus e esotéricos
em geral. Freqüento todas ocasionalmente, todos sabem
de minhas posições pluralistas e todos me recebem
com muita alegria e carinho. Posso dizer, modestamente, que
tenho todas as religiões dentro de mim e ao mesmo tempo
não estou filiado a nenhuma.
P: Você considera que os médiuns são seres
especiais, uma espécie de enviados de Deus?
R: Sim e não. De um ponto de vista, eles realmente
são pessoas que têm uma percepção
mais aguçada daquilo que chamamos de “realidade”.
Eles vêem e sentem coisas que nós, os mortais
comuns, nem imaginamos que estão ali. Olhando sob um
outro prisma, eles também são pessoas comuns,
com problemas quotidianos como todos nós. A grande
beleza que vejo em suas vidas é justamente essa capacidade
de conciliar uma percepção diferenciada da vida
com o engajamento simultâneo na vida dita “normal”.
P: Porque a inclusão de mapas astrológicos no
Apêndice 2 do livro? É um livro de astrologia?
R: Não é de jeito nenhum um livro de astrologia,
respondendo a sua pergunta de trás para diante. O livro
é uma narrativa simples e quase coloquial sobre os
fatos que testemunhei na convivência com estes médiuns
notáveis. O que eu não poderia fazer é
ignorar minha condição de astrólogo e
privar as pessoas que se interessam pelo assunto das informações
sobre os mapas destes paranormais, já que eu tenho
arquivados todos estes dados no meu computador. Houve inclusive
uma preocupação minha de não falar “astrologuês”
na parte onde passo algumas breves interpretações
astrológicas sobre cada mapa.
P: Qual é a sua expectativa a respeito deste seu primeiro
livro?
R: Eu confesso que não tenho uma expectativa definida.
Tenho visto livros sobre mediunidade e espiritualidade presentes
nas listas dos mais vendidos, e acho que existe um interesse
crescente do público leitor por este tipo de trabalho.
Acho que a biografia de Chico Xavier escrita pelo Marcel Souto
Maior abriu uma nova frente de interesse para os leitores.
Mas a estrela do meu livro não sou eu, e sim os médiuns
ali retratados. Eu me considero um privilegiado por ter conhecido
de perto estas pessoas, e sou apenas o cara que alinhavou
as histórias todas em um único volume. Costumo
dizer, em tom de brincadeira, que eu sou apenas o “atravessador”;
as verdadeiras estrelas do livro são os médiuns
e religiosos ali retratados.
©
Milton Montenegro