FOLIAS
METAFÍSICAS
Geraldo Carneiro
à
flor da língua
uma
palavra não é uma flor
uma flor é seu perfume e seu emblema
o signo convertido em coisa-imã
imanência em flor: inflorescência
uma flor é uma flor é uma flor
(de onde talvez decorra
o prestígio poético das flores
com seus latins latifoliados
na boca do botânico amador)
a palavra, não: é só florilégio
ficção pura, crime contra a natura
por exemplo, a palavra amor
os fogos da fala
a
fala aflora à flor da boca
às vezes como fogos de artifício
fulguração contra os terrores do
silêncio
só espada espavento espelho
ou pedra ficção arremessada
ou canção pra cantar as graças
as virilhas as maravilhas da amada
a deusa idolatrada de amor:
essa outra voz quase jazz
que subjaz ventríloqua de si mesma
I don't like myself
queria
ser outro, perambular
entre as bandeiras enfunadas de Pasárgada
bailar no bas-fond de Baudelaire
navegar no barco de Rimbaud
às vezes veranear nos subúrbios
do Inferno
na selva selvagem de Dante
sempre argonauta de ultramares
sem o terror narcísico do espelho:
o mesmo círculo a mesma escrita o mesmo
rosto
o mesmo animal confinado
em sua ridícula circunstância
variações sobre o. bilac
viva
sempre a paixão que me consome
sempre paixão a que me consome viva
paixão a que me consome sempre viva
sempre viva a paixão que me consome
que me consome sempre a paixão viva
que sempre a paixão viva me consome
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© 1995 Geraldo Eduardo Ribeiro Carneiro
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