A MAGIA DE UM MONGE 
Leonardo Boff


Desde que o romance de Marcelo Barros, “A Secreta Magia do Caminho” foi publicado, muita gente se surpreendeu que um monge escrevesse um romance como esse.

Há mais de vinte anos acompanho a trajetória desse pernambucano que, quando criança, queria ser veterinário de animais selvagens e acabou tornando-se monge beneditino e fundando o primeiro mosteiro ecumênico do Brasil. Marcelo sempre gostou de contar histórias e escreve no estilo oral de quem conversa com amigos. Seu trabalho com grupos bíblicos, lavradores na pastoral da terra e sua experiência de diálogo com pessoas de diversas igrejas e religiões aparecem em dezessete livros publicados. Agora, nos presenteia com seu primeiro romance: “A Secreta Magia do Caminho”.

A palavra “caminho” concentra em si uma das mais profundas experiências do ser humano em seu enfrentamento com os desafios do viver. Viver é andar. E sem caminho, não se pode andar. Sem caminho, viveríamos perdidos como numa selva fechada. Mesmo não sendo o ponto de chegada, o caminho já significa luz e libertação, porque assinala uma direção. É isso que testemunha o romance simples e despretensioso de Marcelo.

Contando a história de Joca, nordestino perdido em São Paulo, de Samuel, separado da esposa e em conflito com a Igreja, e de Judite, psicóloga em busca da espiritualidade holística, o livro nos envolve em cada página. À medida que vai sendo lido, começa também a “ler” a vida e a busca de quem viaja por suas páginas.

Nesse livro, Marcelo se expõe porque nos revela que a secreta magia do caminho é o seu modo de compreender a vida, sempre vista pelo lado do coração e pensada com ternura. É essa magia afetuosa que nos conduz à festa pascal daqueles que, no escuro da madrugada, celebram a ressurreição de Jesus e do universo e procuram a “Comunidade da Paz”, onde pessoas das mais diferentes tradições religiosas e culturais se unem para viver em comum, orar e trabalhar pela paz e pela justiça.

Fernando Pessoa dizia que “somos do tamanho do que vemos e não do tamanho de nossa altura”. Mesmo se na altura somos pequenos e nos sentimos perdidos na imensidão do universo, somos chamados a ver, para além de todos os limites, o segredo de amor que permeia tudo e sentir o pulsar do coração do outro e do próprio Deus. Podemos estar no vale, ou na solidão da cidade grande, onde se passa a história desse livro, mas nossa visão vai até o cume das montanhas e une abismos e estrelas.

Por isso, podemos, para além de todas as contradições, manter a esperança.

A quem insistir em ter respostas mais claras sobre o segredo do caminho, o coro da liturgia da rua responderá com Gonzaguinha: “Eu fico com a resposta da pureza das crianças: é a vida, é bonita e é bonita”.


 
 


 
 

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