O
Outro Lado da Questão
Otávio
Azevedo
A recente resolução do Conselho Federal de
Psicologia, proibindo os psicólogos de usarem a astrologia,
florais, quirologia, foto kirlian e outras práticas
ditas esotéricas aliadas à psicologia, sob
a alegação de que tais práticas não
são consideradas científicas, e elaborando
para isso uma espécie de "lista negra" das atividades
vedadas, não pode ser vista apenas sob a ótica
unilateral de uma necessária correção
interna para evitar que a psicologia se veja desvirtuada
ao ser aliada a outras práticas que não lhe
são inerentes. Existe um outro lado da questão,
que diz respeito às implicações éticas
relacionadas à elaboração desta lista,
que, de certa forma, discrimina atividades sobre as quais
o CFP não tem o direito de emitir pareceres. Tal
é o caso da astrologia e demais matérias que
constam da desairosa relação de práticas
banidas pelo CFP.
A atitude de um conselho federal de classe
que elabora uma lista discriminando atividades inerentes
a outras classes profissionais, seja por que motivo for,
é, no mínimo, antiética. O zelo excessivo
pela ética umbilical não pode obscurecer a
questão mais importante de que a ética não
termina no nosso muro, e a felicidade dos nossos filhos
não pode ser tirada da humilhação dos
filhos do vizinho.
É lamentável que o CFP
tenha se esquecido do próprio passado da psicologia,
não tão distante assim, quando também
foi repudiada pela comunidade científica no seu surgimento.
Agora, reconhecida socialmente e acolhida nos próprios
meios científicos que lhe rejeitaram no passado,
seus representantes passam a adotar a mesma atitude presunçosa
para constranger outras atividades que tentam se afirmar,
como se só aquilo que fosse reputado de científico
pudesse ser válido. Afinal, quem é que julga
e considera científico o quê... e para quê?
Quem é dono da verdade por aí?...
As enormes dificuldades que a psicologia
teve para se afirmar como uma profissão digna, como
hoje é universalmente reconhecida, deveriam ter trazido
a lição da magnanimidade. Nos seus primórdios
sua situação não foi em nada diferente
das atividades que hoje pretende banir. Seria mais nobre
de seus dirigentes dar a mão aos que hoje enfrentam
os mesmos obstáculos, e não tratá-los
com desdém e preconceito.
Otávio Azevedo
ex-Presidente do SINARJ
Atenção:
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