A
BUSCA DE DEUS E A VISITA DO PAPA
Marcelo
Barros
Mais
uma vez, o papa João Paulo II veio
ao solo brasileiro. Reuniu milhões
de pessoas no Rio de Janeiro, monopolizou
os meios de comunicação
e lançou sua mensagem moral ao
mundo inteiro.
Tenho
um amigo que não é católico,
não concorda com as idéias
do papa e nem simpatiza com o modo de
João Paulo II exercer sua autoridade.
Entretanto, confessa que, quando vê
o papa, sente-se atraído por qualquer
coisa de misterioso. Surpreende-se emocionado
e envolvendo-se com um rito que não
é da sua cultura e nem do seu gosto.
A
televisão cria um clima de deslumbramento
mágico e mítico em torno
do papa e de suas visitas. Entretanto,
além desse fenômeno de comunicação,
há um elemento mais profundo que
nos atrai e fala ao coração.
Em
quase todas as religiões e caminhos
espirituais, é importante a figura
do mestre espiritual, guru, pajé,
pai ou mãe de santo. O divino se
manifesta a nós através
de um rosto humano: o de alguém
que nos apoia no caminho. Não se
trata de um detentor do poder sagrado,
ou de um intermediário entre o
céu e a terra. É um irmão
ou uma irmã que partilha conosco
a intimidade que tem com Deus.
O
próprio cristianismo, que herdou
do evangelho uma postura crítica
com relação ao poder, organizou
ministérios e serviços.
Jesus mandou que seus discípulos
não chamassem a ninguém
de "pai" ou "mestre". Mas, deu-lhes o
poder de orar em seu nome, curar os doentes
e anunciar que o Reino de Deus vem para
todos. À comunidade de homens e
mulheres iguais, Ele disse: "O que ligardes
na terra, será ligado no céu".
Definindo
a sua missão como a de zelar pela
unidade das Igrejas, o papa tem consciência
de ser para muitos, obstáculo a
essa unidade. Em uma de suas cartas, escreveu
isso e pediu a todos que o ajudassem a
mudar, não a essência do
seu ministério, mas a maneira de
exercê-lo ("Que sejam Um"/1996).
Um
diálogo com as fontes da fé
e com as outras confissões levará
a Igreja Católica a voltar à
teologia do Concílio Vaticano II;
a renunciar ao modelo de uma cristandade
que se impõe ao mundo como religião
de massas sem respeitar quem não
é católico ou quem simplesmente
pensa diferente. Retomar-se-á o
estilo de Igrejas particulares, autônomas
e em comunhão. Como o apóstolo
Paulo escreve "à Igreja de Deus
que está em Corinto", "à
que vive em Tessalônica", e "à
que serve em Filipos".
O
papa não se verá mais como
o bispo dos bispos e nem uma espécie
de "vigário de Cristo" para todas
as igrejas. Já no século
III, São Cipriano, bispo de Cartago,
à frente de um sínodo de
bispos, escreveu:
"Na
Igreja, que ninguém se coloque
como bispo dos bispos; ninguém
tiranize seus colegas, ou os aterrorize
para conseguir seu acordo. Todo bispo
é livre e tem de prestar contas
de seu ministério a Deus."
Se
o papa não é o chefe supremo
de uma igreja centralizada como uma multinacional,
menos ainda deve continuar sendo chefe
de estado a legitimar os poderosos e a
fazer parte integrante da diplomacia do
mundo. A sua palavra poderá ser
mais simplesmente a Boa Nova da salvação.
Não correrá mais o risco
de ditar regras morais que, a tantos irmãos
e irmãs do mundo, parecem incompreensíveis
e desumanas. Como em um novo Pentecostes,
as pessoas de qualquer idioma ou cultura
o compreenderão e o escutarão
proclamar as maravilhas de Deus (At. 2,
11).
Para
as Igrejas em comunhão, o papa
será sempre uma figura querida.
Exercerá o seu ministério
itinerante a serviço da paz e da
justiça. Em um mundo no qual a
globalidade é a do consumo, ele
poderá propor a mundialização
da "solidariedade", nome concreto da caridade.
Os
organizadores de uma visita como essa
poderão prevê-la de uma forma
mais simples. O papa não precisará
de uma pirâmide para celebrar a
ceia de Jesus e nem de um papamóvel
blindado para se locomover pelas ruas.
Não serão necessários
7,4 milhões de dólares para
uma visita de três dias. Nem se
cairá na tentação
de recorrer ao mercado para promover a
fé como se fosse mais um artigo
de consumo.
Viajando
de longe para ver o papa, o que as pessoas
buscam é um símbolo de unidade.
Pedem que ele confirme os irmãos
e irmãs no caminho da fé.
Que com ele, cada pessoas seja estimulada
a entrar em diálogo com o que há
de mais profundo em si mesma. Cada um
se sentirá ligado(a), não
apenas a uma massa que agita bandeirinhas
e adora ter um rei a quem aclamar, mas
a uma unidade humana para além
de qualquer religião ou cultura.
Mesmo não sendo tibetano ou budista,
quando escuto a palavra do Dalai Lama,
sinto-me representado por ele e me alegro
por pertencer à mesma humanidade
que esse profeta. Como o mundo inteiro
reverencia o Mahatma Gandhi, Madre Teresa
e outras testemunhas de Deus.
Através
da figura do papa, somos convidados(as)
a reconhecer em cada ser vivo, um bem
a ser protegido e em toda pessoa humana,
uma imagem do Pai do céu. Então,
todos seremos como um verdadeiro papa
uns para os outros.