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BREVE
POLÊMICA
Nos
idos de 1991, não resisti a responder a um artigo
de Dom Lucas Moreira Neves sobre astrologia e a era de Aquário,
publicado na página de artigos assinados do Jornal
do Brasil. Enviei o texto à editoria
do jornal, que dias depois o publicou na mesma página,
com o mesmo título. Aí estão, democraticamente,
os dois artigos, para que cada um possa formar sua própria
opinião a respeito.
SOBRE
A ERA DE AQUARIUS
Dom Lucas Moreira Neves
A
um certo ponto — dizíamos na crônica precedente
— na corrente filosófica e espiritual, de pensamento
e de ação, que responde pelo nome de New Age,
vem desaguar outra corrente cuja característica é
a convicção de que está iminente uma
suspirada "era de Aquarius".
Duas
coisas a New Age não esconde: que para ela a Astrologia
é uma verdadeira ciência (estranha ciência
da leitura e interpretação dos astros e da
influência dos astros sobre as pessoas) e que seus
"dogmas" mais significativos provêm dessa ciência.
É
por esta sua indisfarçável vertente astrológica
que a New Age aceita e assume as crenças a respeito
da "era de Aquarius", vendo nesta uma resposta razoável
e convincente à indagação sobre como
será a "nova idade" prevista e desejada. Esta pode
ser, sem tirar nem pôr, aquela que grupos sempre mais
numerosos chamam de "era (ou idade) de Aquarius".
O
que os teóricos aquarianos mais respeitados afirmam
é que ao redor do ano 2000 — precisamente em 2012,
adiantam os mais iluminados — o Sol vai entrar na órbita
de uma nova constelação, a de Aquarius. Este
acontecimento terá uma importância transcendental
para a humanidade, pois com ele se estará dando uma
formidável mudança de rumo na história;
mudança de rumo no mundo inteiro.
Que é que está por acontecer? Segundo as explicações
fornecidas com tocante convicção pelos adeptos
da teoria aquariana, houve época em que a humanidade
esteve sob o influxo da constelação do Touro:
foi a era marcada pela truculência dos impérios
assírio e babilônio e pelo sortilégio
das grandes religiões da Mesopotâmia. Seguiu-se
o influxo de Áries: a projeção de um
pequeno povo, Israel, e da religião mosaico-judaica.
Com o Sol na constelação de Peixes — continua
a elucubração astrológica — afirmou-se,
nestes últimos dois milênios, o cristianismo
como religião e como civilização. Por
isso — justificam os astrólogos da New Age — o peixe
foi, na antigüidade cristã, o símbolo
de Cristo. Na verdade, o simbolismo nada teve a ver com
a constelação de Peixes: simplesmente, para
ocultar-se aos inimigos e revelar-se entre irmãos,
para não se identificarem por meio da cruz, demasiado
explícita, os primeiros cristãos escolheram
o peixe porque a palavra peixe em grego ICHTYS continha
as iniciais Iesous Christós Yiós Theou Soter
(Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador).
A era de Peixes, era crística por excelência
— sentenciam os teóricos da New Age —, foi de conflitos,
confrontos e lutas. A era de Aquarius, que já desponta,
será de compreensão e diálogo, de tolerância
e de paz. Com o Sol em Aquarius, deverá reinar uma
nova ordem internacional, mundial, uma nova "religião",
uma nova humanidade.
Opino (não solitariamente, mas na companhia de muitos
estudiosos e analistas, na farta literatura sobre o assunto)
que sua vinculação com a Astrologia constitui
uma das fraquezas maiores da New Age. A razão, bastante
simples, é que não faz sentido anunciar uma
nova era em tudo superior às antigas, era quase perfeita,
na qual florescerá o que há de melhor no homem
e admitir e proclamar que esta será produto de mera
revolução... dos planetas. É sabida
a crítica acerba que a New Age assaca contra o excesso
de racionalidade nas religiões, em todos os tempos:
na New Age não falta quem denuncie uma carência
do mínimo de racionalidade.
Este dado se choca, de resto, com a pretensão da
New Age de construir-se sobre bases científicas.
De fato, é um cientista, Fritjof Capra, quem, no
seu livro O Tao da Física, texto fundamental do movimento,
formula as grandes linhas de uma "revolução
cognitiva" promovida pela New Age. Teorias de cunho científico
são elaboradas também pelo matemático
Ralph Abraham e por Patrícia Nische (educação
global). Mary Ferguson (sic), discorrendo sobre a "conjuração
suave" (Die Sanfte Verschwörung), se esforça
por ver a nova era — era de Aquarius — como fruto de uma
convergência de pensamentos e de ações
orientados pelo desejo e pela esperança de um tempo
marcado pelo amor, pela compreensão, pela superação
dos conflitos.
É justo reconhecer, por outro lado, que alguns autores
da New Age consideram ponto-chave nesta corrente de idéias
a consciência e seu desenvolvimento como chave da
caminhada para a Idade nova. Não deixam de ser fascinantes
as considerações sobre a "espiritualidade
global" baseada na concepção de um universo
absolutamente uno, no qual não se distinguem sujeito
e objeto, Criador e criaturas, Deus e homem. Para os autores
mais autorizados da New Age, a humanidade é uma coisa
só no seu interior; humanidade e natureza, uma coisa
só; o universo e Deus uma coisa só, o que
resulta em um panteísmo, ou, mais exatamente, em
um pan-en-teísmo.
Resta, porém, que o ideal desta nova era de unidade
e de paz aparece apoiado em antigos e novos mitos. Não
apontando os princípios e normas, os dados e fatos
concretos sobre os quais se estriba, mais parece uma utopia
do que uma realidade, fruto mais de voluntarismo do que
de esforço e construção humanos.
Uma certa inquietação humana reponta constantemente
e dela são testemunhas Agostinho e Tomás de
Aquino, Pascal e Bergson, John Henry Newman e Thomas Merton.
Deles são testemunhas os santos em geral. Mas de
quem se esperam esses tempos novos: da ação
do homem em comunhão com Deus? Ou do movimento dos
astros?
SOBRE
A ERA DE AQUARIUS
Waldemar Falcão
No seu artigo de 19 de junho sobre a Era de Aquário,
Dom Lucas Moreira Neves reclama a ausência de "...princípios
e normas, fatos concretos sobre os quais se estriba (o ideal
desta nova era)...". Atendendo ao seu apelo, aproveito para,
além de enunciar alguns "fatos concretos", fazer respeitosamente
alguns reparos ao seu texto:
O Sol não "...vai entrar na órbita de uma nova
constelação...". O ponto que marca a passagem
aparente do Sol do hemisfério Sul para o Norte no equinócio
de março, é chamado de Ponto Vernal (relativo
à Primavera do hemisfério Norte). Devido a um
fenômeno astronômico de oscilação
lenta do eixo da Terra (a Precessão dos Equinócios),
a cada 72 anos a localização deste ponto vernal
sofre um movimento retrógrado de aproximadamente um
grau de longitude zodiacal; isto resulta numa trajetória
precessional que percorre 30 graus a cada 2.160 anos e nos
dá o fundamento astronômico da passagem das grandes
eras. Aí está o fato concreto: toda esta especulação
a respeito das eras precessionais está baseada na observação
e medição astronômica, e não em
uma "elucubração astrológica".
A Era de Aquário não seria "...em tudo superior
às antigas...". Nunca houve entre os estudiosos da
Astrologia esta versão de que Aquário seria
uma era melhor do que as outras. Toda a essência do
conhecimento astrológico nos ensina que não
existem signos "melhores" ou "piores" do que os outros. A
visão astrológica é, por motivos óbvios,
dodecagenal, e portanto, tenderá sempre ao pluralismo,
jamais ao maniqueísmo. O que existe é uma expectativa
de que estes tempos vindouros sejam menos dogmáticos
e mais democráticos, com a revolução
da tecnologia (uma ferramenta aquariana) funcionando a serviço
de um progresso não apenas material, mas utilizando
os seus meios mais importantes (a televisão, o satélite,
a informática) como instrumentos de uma democratização
da informação e do conhecimento, nos conduzindo
na direção de uma conscientização
planetária, ou, nas palavras de Dom Lucas, a uma "espiritualidade
global" a que certamente aspiram todos os homens de boa vontade,
sejam eles astrólogos ou não.
Quando Dom Lucas afirma que o simbolismo do peixe entre os
primeiros cristãos resultou de uma coincidência
entre as letras da palavra "peixe" em grego e as iniciais
de Jesus Cristo, somos levados a concluir que também
deve ter sido uma coincidência o fato de Jesus ter escolhido
muitos de seus primeiros discípulos entre os pescadores
daquela época, e de ter chegado ao número de
doze para os apóstolos que foram os continuadores de
Sua obra...
Entre as "testemunhas da inquietação humana"
citadas por Dom Lucas está um autor de fundamental
importância para todos os que levam a sério o
estudo da Astrologia: São Tomás de Aquino, um
dos maiores pensadores do catolicismo, que na sua "Suma aos
Gentios", entre os capítulos 82 e 85, desenvolve com
a profundidade e sabedoria habituais, muitos dos fundamentos
da "Ciência Astrológica" (como ele a chamava),
a partir do estudo do movimento dos astros e de suas influências
sobre os homens. Permito-me citar uma outra testemunha mais
recente: o psiquiatra Carl Gustav Jung, que oferecia a cadeira
de Astrologia como matéria eletiva em seu curso de
Psicologia Analítica em Zurich, e não obstante
o fato de se considerar um cientista, era um defensor do conhecimento
astrológico, que para ele "continha todo o saber psicológico
da antigüidade".
Talvez o traço mais essencial destes tempos aquarianos
iminentes seja justamente este pluralismo, este ecumenismo
que nos convida a aceitar respeitosamente opiniões
diferentes da nossa para que as idéias se confrontem
e ambos os lados se enriqueçam com o debate. Aquário
é o signo da fraternidade humana, o Aguadeiro que verte
a água do conhecimento sobre a humanidade, a "Brotherhood
of Men" imaginada por John Lennon na sua canção.
São símbolos aquarianos presentes no nosso quotidiano
desde a ONU até as associações de moradores,
passando por associações espiritualistas, comunidades
eclesiais de base, e todo o tipo de agrupamento onde os homens
se reúnam para defender ou beneficiar os seus semelhantes.
Esperamos que, num futuro próximo, nenhum conhecimento,
quando levado a sério por um grupo de pessoas, seja
descartado ou menosprezado aprioristicamente. A classe dos
astrólogos certamente se pauta por esta abertura, já
que procura enriquecer o seu saber em outros ramos do conhecimento
(matemática, astronomia, física, psicologia,
história) onde suas próprias observações
são, com honrosas exceções, olhadas com
desdém. Foi este tipo de pré-conceito
que levou Newton a responder a Halley, quando este lamentou
o fato de seu colega acreditar na Astrologia, com a afirmativa:
"Sir, I have studied it, you have not!" ("Senhor, eu
a estudei, o senhor não!")
Copyright
©1991 Waldemar Falcão
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