O Deus de cada um - Prefácio
 


A família de Michel de Notredame, médico, astrólogo e profeta mais conhecido como Nostradamus, foi convertida do judaísmo ao catolicismo à força, por um decreto do rei Luís XIII que obrigou os judeus da Provença a abraçar a fé católica, sob pena de tortura e morte caso não o fizessem. O pai do profeta passou a vida sentindo-se culpado pela “traição” feita a Jeová. Mas Jean de Saint Rémy, avô materno do lendário astrólogo e responsável por sua formação médica e ocultista, dissipou essa culpa no jovem Michel com uma frase simples e definitiva: “Para Deus, um nome é tão bom quanto qualquer outro.”

Este livro poderia se chamar também “O Deus de todos nós”, e nada mudaria em sua proposta ou em seu teor. Isto porque, como vão ver ao longo da leitura, independentemente da convicção e da tradição religiosa de cada um dos retratados, o fator comum a todas as histórias é a certeza de que todos falam da mesma Presença Eterna, da mesma Consciência Cósmica, do mesmo Princípio Universal que impregna cada crença com uma concepção particular da Divindade, mas que, de uma maneira inefável, emana a mesma Essência em todos os relatos. O Deus de todos nós. O Deus de cada um.

Mesmo nas tradições que aparentam ser politeístas, como a umbanda, o santo-daime e o hinduísmo, por trás de todas as divindades, em sua riqueza e variedade peculiares, encontramos a mesma Presença, a mesma Essência Universal inspirando rituais e concepções específicas, mas sempre remetendo a uma Causa Primordial. Os hindus chamam essa Presença de Atma, a centelha divina que habita o coração de cada ser vivente; as tradições cristãs a chamam de Espírito Santo; as tradições esotéricas, de Eu Superior.

Não houve qualquer pretensão antropológica ou sociológica a fundamentar esse trabalho. A intenção foi sempre a de reunir relatos e testemunhos da maneira mais humana e respeitosa possível. São histórias colhidas de depoimentos naturais e espontâneos, através de conversas e entrevistas, e transformados no trajeto de cada personagem ao longo de sua busca espiritual.

Também não existe aqui a intenção de investigar o aspecto mundano das estruturas religiosas, a não ser na quantidade minimamente necessária para explicar ao leitor o funcionamento de alguns rituais e rotinas básicas dessas tradições. A perspectiva deste livro é sempre a partir do ponto de vista do ser humano, da experiência de cada um, da visão que cada um possui de sua relação com o divino e da transformação que essa experiência tenha operado em suas vidas.

A escolha das tradições religiosas aqui apresentadas também seguiu um critério relativamente subjetivo, que foi o da disponibilidade de cada um que se interessou pela idéia do livro, concordou em dar seu testemunho e autorizou a publicação de sua história.

Aos que estranharem a presença de confissões que possam ser polêmicas ou controversas, basta que mantenham aberto o espírito de tolerância e pluralismo que permeia todos os relatos, sem nenhuma exceção, e que reparem que o foco deste livro não são as instituições, e sim as pessoas e a fé que as move e as transforma.

Estamos vivendo em uma época de grandes questionamentos nas questões religiosas e espirituais, e a hegemonia judaico-cristã que imperou no Ocidente durante séculos não existe mais. As religiões orientais estão definitivamente incorporadas ao nosso dia-a-dia e as tradições religiosas tipicamente brasileiras como a umbanda e o santo-daime também já fazem parte da religiosidade contemporânea, independentemente do que informem os censos.

Portanto, a essa altura só nos resta reconhecer e assimilar essa diversidade religiosa, considerando-a como um processo inevitável e — principalmente — enriquecedor do ponto de vista humano e espiritual. Todos os aqui retratados nos ensinam essa lição, porque, além de militarem de forma plena em suas crenças, cultivam um espírito ecumênico e aberto ao diálogo com as outras confissões religiosas. Alguns deles, como o monge Marcelo Barros, a monja Coen, o sheik Ragip e o swami Chadra Mukha, são amigos fraternos e se encontram regularmente em eventos ecumênicos e multi-religiosos.

Na outra ponta, cresce a quantidade de livros que pretendem questionar as religiões e até o próprio conceito da divindade, tentando atribuir a ambos a responsabilidade pelos descaminhos da nossa civilização. Seria um raciocínio muito simplista e unilateral. Se quisermos culpar instituições pela crise civilizatória que vivemos, existem dezenas delas que poderíamos apontar como responsáveis, e muitas não têm ligação alguma com a experiência religiosa.

Em O Deus de cada um, os relatos colhidos nos fazem recobrar a esperança de que a espiritualidade, quando vivida de maneira plena e verdadeira, resgate através do encontro com o divino o humanismo que deveria nortear a nossa civilização planetária e nos torne dignos de sermos chamados de “filhos de Deus”. O Deus de todos nós. O Deus de cada um.


Waldemar Falcão
Araras, Petrópolis, janeiro de 2008.


 
 


 
 

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