Paulo Waldemar Falcão


Alma de Papel Molhado

Saudade de Filho
(A meu pai Waldemar Falcão)

Se àqueles que partem deste mundo
Na sublime jornada à outra vida

Fosse dado sentir a dor no fundo

Do coração que fica em despedida

Eu quisera, meu pai, que Deus te desse

Na rápida visão de um só momento

O retrato da dor neste tormento

Na alma do filho que jamais te esquece

Mas se duro me foi o sofrimento

E o coração de mágoas se entristece

Elevo para os Céus neste momento

A imperecível glória do teu brilho
Na comoção sincera desta prece

No doce orgulho, meu pai, de ser teu filho!...

Chuva

Murmúrio lento e triste de uma noite

Lágrimas sentidas — natureza

Tu és ó chuva soluçante e fria

Mais um mistério eterno de beleza

Lindo cantar que tal como as cascatas

Alegras as manhãs cheias de flores

Tu és, ó chuva, também um dos albores

Que faz resplandecer as nossas matas


De todos os prazeres, no entanto,

É encontrar o Sol o que te enleia

Um interlúdio de amor — sem o sentires

Ao teu amado expões o teu encanto

E quando o olhar do Sol te galanteia

Fazes surgir no Céu o Arco-Íris...

Prenúncio
(A meu filho Waldemar Falcão Neto)

O teu olhar que é meu já não reflete

A minha imagem no teu pensamento

Há um pequenino Ser nos teus olhares

Fazendo-te feliz cada momento

Tu olhas para mim, mas os teus olhos

Não vêem meu olhar, vão mais além

E eu sinto o mais divino dos ciúmes

Por este Ser que já se fêz alguém...

E enquanto esperas por um Ser tão lindo

Esta minha alma já se vai sentindo

Feliz por tão sublime devoção

Pois essa criatura tão querida

É a bênção mais feliz de nossa vida

É sangue do meu próprio coração.

Reverso

É efêmero na vida a própria vida
Não há felicidade que perdure
E é portanto sábio que se apure
A busca pela causa mais querida

Mas de que vale o prêmio conquistado
Em lutas e idéias numa existência?
Se todos eles juntos em sequência
Tornam-se um dia fatos do passado...

Somos trazidos para um chão de sonhos
Vivemos tão alegres, tão tristonhos,
Cientes de que tudo acaba um dia.

Talvez no Outro lado é que a verdade
Exista eterna na realidade
Do que aqui se vive em fantasia...

Yoga-San

Eu me integrei a ti, ó natureza,
Na mansidão do tempo que caminha
Tua cadência eterna agora é minha
Em magistral e íntima certeza...

Eu sou como a estrela que cintila
Na grandiosa distância do Universo
Eu sou a inspiração sutil do verso
Que estraçalha a alma sem feri-la...

Eu sou tal qual a ave que gorgeia
Em cântico estridente de alegria
Eu sinto o cristalino da água fria
Que vem na espuma mergulhar na areia

Eu sinto a bruma doce das cascatas
Que explodem sobre as pedras seu fragor
Eu sinto dentro em mim todo o esplendor
Do verde rutilante dessas matas...

Eu desço alegre pelas corredeiras
Num desabar de pingos e matizes
Eu me agarro também pelas raízes
Das árvores que se banham nas ribeiras...

Eu sou como a gaivota que flutua
No espaço azul dos ventos permanentes
Eu adormeço também tão docemente
Como adormece, à noite, a luz da Lua...

Eu sou como a paisagem que derrama
Todas as cores do Céu no entardecer
Em mim mora a palavra que declama
O verso da saudade a reviver...

E na grandeza azul do firmamento
Cujo mistério o espaço não desvenda
Eu espero que minha alma se distenda
Até tornar eterno este momento...


O Cristalino Espírito da Vida

A primeira vez
(Para minha neta Viviane Morel Falcão)

Minha netinha está ficando linda
Está aprendendo a dizer "mamã"...
Eu escutei, faz pouco tempo ainda
Eu vi acontecer esta manhã

A mãe, que estava perto, derreteu-se
Seu rosto iluminou-se de alegria
Lançou olhar tão pleno de magia
Que o meu coração estarreceu-se

Segue feliz, Vivi, o teu caminho
Vai aprendendo com o coraçãozinho
Certas palavras que eu jamais esqueço

De todas elas, que aprendi na vida
Uma ficou guardada e inesquecida:
"Mamãe" é a mais bonita que eu conheço...

Anjo da velha guarda

Vivizinha, minha neta
Bochechinha de carmim, 
És uma flor bonitinha 
Que nasceu no meu jardim

És a bela borboleta 
Que esvoaça no meu céu 
Vais crescer moça tão linda 
De se tirar o chapéu

O vovô não sabe ainda 
Quantos anos vai viver 
A vida da gente finda 
Só não se sabe porquê

Quando eu partir deste mundo 
Uma coisa eu decidi 
Não podendo estar contigo 
Ficarei de olho em ti..

Vox Cordis

Todo poeta é sempre um desligado
A viver sempre em seu interior
Com o próprio coração ao seu dispor
O amor à alma condicionado


Juntar a emoção ao sentimento
Unir o coração à própria mente
Procurar ser veraz e coerente
Ter a verdade como um monumento


Ser-se poeta embora se pareça
Com o atuar sem usar a cabeça
Agindo aéreo, vago, sem noção


Contudo, nunca um ser é tão preciso
Jamais age tão certo e tão conciso
Pois canta pela voz do coração!...

Copyright © 1985/2006 - Paulo Waldemar Ribeiro Falcão

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