O AMOR DE DEUS, A VIOLÊNCIA RELIGIOSA
E OS DIREITOS HUMANOS

Marcelo Barros



Enquanto, aqui, conversamos sobre o problema da intolerância religiosa como fator de desrespeito aos direitos humanos, nesse momento, a França comemora os quatrocentos anos do "Edito de Nantes"(1598). O país tinha vivido quase quarenta anos de guerra entre católicos e protestantes. Em 1572, na famosa "Noite de São Bartolomeu", que se prolongou por mais dois dias, os católicos assassinaram aproximadamente 70.000 pessoas, protestantes ou suspeitas de protestantismo. A corte francesa exultou. Em Roma, o papa Gregório XII celebrou um culto de ação de graças (Te Deum) pela vitória.

Para a maioria das pessoas, a fidelidade à sua fé se verificava pelo combate a qualquer um que professasse a crença, de modo diferente. Na sociedade, a religião legitimava o poder político. Confundiam-se os interesses dos reis com o que pensavam ser os interesses de Deus. Só em 1598, o Edito de Tolerância entre católicos e protestantes foi assinado e mais por razões políticas do que religiosas. Na Inglaterra, somente no século passado (1829), os católicos conquistaram o direito de viver sem ser discriminados.

Na mesma Inglaterra, já em 1689, John Locke escrevia a sua "Carta sobre a Tolerância". Esse primeiro tratado filosófico sistemático sobre a Tolerância, herdando as reflexões de pensadores como Marcílio de Pádua, Erasmo de Rotterdam e Thomas Morus, defende que todo ser humano tem direitos naturais que devem ser respeitados. Os direitos do ser humano e do cidadão não pertencem à esfera religiosa e deve haver liberdade de consciência. Locke ainda não compreende que se devam respeitar o direito dos ateus e chega a concordar que não é necessário ser tolerante com quem é intolerante. Por exemplo, como os católicos são "intrínseca e por natureza, intolerantes", não merecem tolerância. Esta é a própria ambiguidade do termo. A Tolerância denota uma relação ambígua de quem tem o poder e o arbítrio com alguém ou um grupo mais fraco ou com menos direitos. Em princípio, a autoridade "tolerante" poderia ser intolerante. A tolerância seria então, apenas uma espécie de etapa necessária para o pleno respeito aos direitos de cada pessoa e dos grupos à liberdade religiosa e política .


1 - As cruzadas do século XX

De fato, na história do mundo, as religiões têm sido especializadas em arrogância, intolerância e repressão. Embora o cristianismo tenha sido campeão em todos as partidas desse jogo, nenhuma das grandes religiões pode dizer que está totalmente livre do espírito guerreiro provocado pela doença do dogmatismo e da pretensão de ser universal e, de certa forma, única.

Embora, na história, o budismo tenha sido, como dizia Paul Ricoeur: "a única das grandes religiões do mundo que nunca provocou guerras" , à medida em que tornou-se religião de estado, os templos budistas foram ao menos cúmplices de perseguições cometidas pelo poder. Hoje, a Birmânia é o último país em que o budismo ainda é considerado religião oficial e é um país governado por uma ditadura militar feroz .

No mundo inteiro, o budismo é a religião da ahimsa do Gandhi e da não violência ativa. Um preceito básico do budismo é: "Consciente de que a destruição da vida traz muitas infelicidades, eu estou determinado(a) a não matar". Alguns grupos budistas chegam a prometer nunca atentar contra qualquer tipo de vida, mesmo de um inseto. Entretanto, o budismo não escapou da infelicidade de ter dentro dos seus limites, seitas que fazem sincretismo entre o budismo, xintoísmo e o espírito nacionalista japonês e, de vez em quando, pretendem castigar a humanidade com algum atentado em Tóquio, ou outros lugares.

A descoberta das cruzadas e inquisições coube ao cristianismo católico. E de vez em quando, comunidades evangélicas foram também contaminadas pelo germe da mesma doença de que haviam sido vítimas. Basta lembrar as fogueiras que queimaram hereges na Genebra calvinista, a intolerância de Lutero com os anabatistas e episódios como o das chamadas "bruxas de Salém", tematizado em uma peça de teatro americano da década de cinquenta e agora atualizado em filme.

Lucette Valensin escreve que os judeus de Marrocos continuam, até hoje, a festejar um Purim que celebra a derrota dos portugueses em Alcácer Quibir (1580), por saberem que, se o exército português de D.Sebastião tivesse vencido, o povo judeu teria sido massacrado. Os cristãos europeus sempre foram mais violentos e menos tolerantes do que os árabes.

As cruzadas como expedições guerreiras acabaram, mas o espírito de cruzada continua a florescer no mundo atual e ainda provoca muitas tragédias. O rapaz turco que, em 1981, atirou no papa João Paulo II declarou: "Decidi matar João Paulo II, supremo comandante dos cruzados". Amin Maalouf, que registra essa declaração, observa que "muitas vezes, é surpreendente verificar até que ponto a atitude de muitos muçulmanos e árabes, em relação ao Ocidente, permanece influenciada, ainda hoje, por acontecimentos que, em princípio, chegaram aos seu fim, há sete séculos. A ruptura entre as civilizações cristã e muçulmana data das cruzadas, vivenciadas pelos árabes ainda hoje como uma violação. Por exemplo, por causa do modo como as potências ocidentais atuaram na origem e estão na história do estado de Israel, este é considerado pela consciência de muitos árabes como herdeiro dos cruzados".

Do lado do islamismo chiita, graças a Deus, o Irã superou o clima de guerra sagrada que havia no primeiro momento da revolução islâmica. No dia 13 de dezembro de 1983, o ayatollá Komeini discursou, através da Rádio Teheran, para todo o Irã: "Se se deixa o infiel prosseguir sua função nefasta sobre a terra, seus sofrimentos morais irão aumentando. Se se mata o infiel, está se impedindo que ele continue no caminho do mal. Então, esta morte será um bem para ele e para a humanidade. Matá-lo é uma operação cirúrgica comandada por Deus todo poderoso. (...) Aqueles que seguem os ensinamentos do Corão sabem que o Islã deve aplicar a lei do talião. (...) A guerra é um benefício para todas as nações. É Deus que incita os seres humanos a se bater a se matar. (...) A religião na qual a guerra é ausente é incompleta. Se tivessem dado à sua santidade Jesus o tempo de viver, ele teria agido como Moisés e teria brandido a espada. Os mollahs de cortes corruptas que afirmam que isso é contrário ao ensino do Islã são indignos do Islã e devem ser castigados. (...) Matar o descrente é uma das maiores missões de um ser humano".

A interpretação do Corão contida nesse texto ou na ação dos Hezbollah no Líbano e na proposta dos fundamentalistas da Argélia não nos pode fazer esquecer que o Islã não é preponderantemente uma religião de guerra e de intolerância. Na sede da UNESCO, em 1981, o Conselho Islâmico Internacional publicou a "Declaração Islâmica Universal dos Direitos Humanos". Nela, se declara:

"O princípio corânico de que em matéria de religião não pode haver constrangimento (alguém ser forçado) deve reger os direitos religiosos das minorias não muçulmanas. (...) Num país muçulmano, as minorias religiosas devem ter o direito de escolher entre a lei islâmica e suas próprias leis religiosas, para a condução de seus interesses cívicos e pessoais"(art. X: Direito das minorias).

No hinduísmo, toda a espiritualidade é de paz e convivência pacífica com todos os seres do universo. A maioria da população da Índia sente assim, mas, alguns acreditam que Rama é um deus guerreiro e criaram um nacionalismo de tipo religioso que persegue os 11% da população que é muçulmana.

No dia 6 de dezembro de 1992, uma multidão fanatizada demoliu a antiga e venerável mesquita de Ayodhya (sec.XVI), pequena cidade situada uns cem quilômetros de Dehli. Os sangrentos conflitos que seguiram a este ato de vandalismo e que continuam até hoje a opor nacionalistas hindus e fiéis muçulmanos já fizeram milhares de mortos.

O mesmo fundamentalismo violento encontramos no judaísmo. O fato de um homem como o ministro Itzhak Rabin se ter transformado de um guerreiro intransigente em um homem de diálogo, o tornou suspeito. O fato dele ter afirmado claramente: "A Bíblia não é um título de propriedade" foi um dos motivos que fizeram dele um mártir da paz e do diálogo entre os povos. Yigal Amir, o rapaz fundamentalista que matou o ministro declarou textualmente: "Matei-o por um mandado de Deus". Infelizmente, o fundamentalismo judaico tem crescido.

Entretanto, o fundamentalismo moderno é mais um filho do cristianismo. Nasceu numa corrente do protestantismo americano . No mesmo dia em que estamos aqui nesta Comissão de Defesa dos Direitos Humanos da Câmara dos Deputados falando sobre tolerância religiosa, a Agência Estado está espalhando para o mundo a seguinte notícia:

"Atlanta: O número de grupos que promovem a intolerância racial e religiosa nos EUA cresceu em 20% no ano passado, informou o Centro Legal Sulista para a Pobreza. O relatório anual do centro afirmou que o número de movimentos de "ódio" subiu no último ano, para 474, em relação a 1996. O relatório identificou 163 sites na Internet usados pelos grupos radicais norte-americanos, incluindo 29 que abraçam as causas da Ku Klux Klan, 39 de doutrina neonazista, 27 com mensagens tipicamente skinhead, 25 que apóiam as doutrinas da Identidade Cristã e 46 de vários outros grupos radicais" .

Como se pode facilmente constatar, a pátria da intolerância não é algum país islâmico, mas a própria sede do Império. A intolerância é uma tentação tão espalhada que não é de hoje que, de vez em quando, ela volta a casas onde antigamente já morou. Atualmente, consegue, por exemplo, se hospedar até no Vaticano.


2 - A violência em nome do Cristo e os direitos humanos no Brasil

No cristianismo existe um fundamentalismo bíblico, um fundamentalismo teológico, ético e mesmo eclesiástico que vê a Igreja como Divina, confundindo o absoluto de Deus com uma religião que se propõe a tematizar o encontro com Ele. Onde há fundamentalismo, há intransigência e intolerância e, às vezes, até racismo.

O tipo de sociedade que temos no Brasil, como em toda a América Latina, é fruto de uma violência socio-política e religiosa. A Espanha que se unificou como reino católico expulsando violentamente dos seus territórios judeus e muçulmanos, teve o mais terrível e violento Tribunal de Inquisição que já houve no mundo. O rei D.João III invejou e queria o mesmo para Portugal. O papa Clemente VII não deu justificando: "para que Deus não peça de nossas mãos e de vossa Majestade, o sangue de tantas vítimas". Mais tarde, a Inquisição foi reaberta e o Brasil passou a depender da Inquisição de Lisboa. No Brasil, houve vários casos de pessoas cuja propriedade foram confiscadas e elas foram torturadas e queimadas. Eram judeus obrigados a se converter, como também houve casos de acusação de bruxaria, feitiçaria e bigamia.

No Brasil, somente a partir da década de cinqüenta, as Igrejas protestantes puderam ter templos visíveis. Mas, o arcebispo do Recife ainda ia a industriais para pedir que não empregassem em suas fábricas operários protestantes. Eu conheci pastores evangélicos que me mostraram marcas de balas nas pernas, sinal da perseguição que sofreram de católicos no sertão de Pernambuco.

Comunidades do Santo Daime foram e ainda são objetos de discriminação e preconceito. Entretanto, são os cultos afro-brasileiros que têm a história mais longa e ilustrativa de perseguições e calúnias. Até hoje, há grupos cristãos que fazem cruzadas contra o candomblé e a umbanda. Há igrejas que, cada vez que querem dar nome a um demônio, o chamam com o nome de um orixá. Somente nas últimas décadas, os terreiros dos orixás deixaram de ser casos de polícia. "Ainda hoje, em Salvador, o Museu Estácio de Lima, subordinado à Secretaria de Segurança Pública do Estado da Bahia, apesar dos protestos e das campanhas, reúne, junto aos testemunhos de aberrações naturais, armas e objetos usados em crimes, muitos objetos sagrados dos templos de candomblé, roubados pela polícia e expostos ao público, como se esse culto fosse uma aberração a mais. Infelizmente, essa é a visão e o ensinamento que repassam às crianças e à juventude de várias escolas que frequentam aquele museu. Alguns dos objetos que estão ali são símbolos místicos vedados aos não iniciados. Esse é um triste símbolo das relações da sociedade com a fé das comunidades negras" .

Quando se passa, hoje, em comunidades indígenas de toda a América, em muitos lugares se vêem, consequências trágicas das missões cristãs. Na Ilha do Bananal, por exemplo, ali é a aldeia javaé. Mais para lá, em outro local, a aldeia dos índios convertidos aos crentes. Famílias divididas e culturas desrespeitadas.

Uma cruzada que até hoje ainda vigora na Igreja é a campanha pela moral, de acordo com os seus critérios e princípios, impostos para toda a sociedade, em nome de Deus. Sem dúvida, muitos aqui têm sido testemunhas de como certos defensores da moral católica podem ser agressivos quando se pronunciam para impedir que seja aprovada alguma medida que eles julgam favorável ao aborto, ou ao divórcio ou qualquer princípio contrário às leis da Igreja.

Se eu fosse dizer aqui a minha experiência de padre e confessor, poderia contar casos e casos de violências sofridas pelas consciências das pessoas que não conseguem viver os parâmetros rígidos do dogmatismo moral das Igrejas.
Na Igreja Católica, o próprio sinal que Jesus deixou como instrumento de comunhão é marcado pelo exclusivismo. Exclui as pessoas que se sentem em falta com o sistema.

Mesmo os setores mais abertos da Igreja Católica que defendem direitos dos prisioneiros, dos menores e meninos de rua, dificilmente se engajam numa campanha de denúncia da violência contra homossexuais que entretanto tem aumentado terrivelmente nos últimos anos.

Há uma permanente vigilância da Igreja sobre as artes. No interior de São Paulo, o ano passado, um padre quis impedir o diretor José Celso Martinez de estrear uma de suas peças na cidade. Em algumas cidades, quando, nos cinemas, passou filmes como "A Última Tentação do Cristo" e "Je vous salue Marie", formaram-se protestos que em alguns casos chegaram a ser depredadores e violentos.

É importante verificarmos por que ocorre esse fenômeno de que religiões que se proclamam como testemunhas e instrumentos do amor de Deus acabam se tornando veículos de intolerância e de ódio contra o diferente.


3 - A tradição exclusivista das religiões

A fé, a mística ou espiritualidade chamam o ser humano a dialogar com aquilo que de melhor e mais amoroso há dentro de si mesmo ou, em outro sentido, sair de si mesmo, do seu eu egoísta para descobrir a revelação divina na criação, nas outras pessoas e na palavra humana da qual Deus se serviu para manifestar seu amor pela humanidade. Isso quer dizer que a fé é a expressão de uma comunhão com Deus, com os outros e consigo mesmo. A religião que tematiza a fé aparece como uma expressão cultural do encontro de Deus com uma comunidade. Isso faz com que, embora seja chamada a ser fermento de paz e de amor, facilmente caia na tentação do absolutismo. O que é uma cultura? Em meio a tantas tentativas de definição que antropólogos e sociólogos dão, podemos dizer que cada cultura é uma visão global da vida e da relação dos seres humanos com o ambiente que os rodeia.
Cada cultura se vê como completa e central. Ernesto Balducci tem um poema que eu traduziria e aplicaria assim:

Cuzco significa "umbigo".
Os andinos acreditavam que ali era o umbigo do mundo
Em Bali o vulcão Gunung Agung, o mais alto, é o umbigo do mundo
No tempo do seu império, Babilônia era o umbigo do mundo.
O templo dos seus deuses, o centro de todo o cosmos.
O Egito também se pretendia o eixo a partir do qual o universo se equilibrava de um lado e outro do Nilo.
Como os karajá do Brasil acreditavam que todo ser humano nasceu no fundo do rio Araguaia.
Na antiga Grécia, Delfos tinha o seu templo: o "ónfalos", a pedra umbilical do universo.
Como o templo de Quetzaltepec na Guatemala, o templo de Jerusalém...

Qual é o centro ou o umbigo do mundo?
Quando eu era menino e morava no Recife, eu ouvia um locutor com uma voz muito límpida e potente dizer a cada momento, pela rádio: "Aqui, Rádio Jornal do Comércio, Pernambuco falando para o mundo!".

O cristianismo tem muitas igrejas, mas todas se dão um título que desconhece as demais. Eu sou da Igreja Católica (a Universal), você é da Igreja Evangélica, o outro é da Igreja Ortodoxa (verdadeira). As outras não seriam. A Assembléia de Deus é o nome da comunidade do povo de Israel, reunido no Êxodo 19; seria o nome de todas as comunidades que se sentem reunidas por Deus. Um grande amigo meu é pastor da Igreja de Cristo.

Talvez seja menos pior do que a minha que, no Brasil, como na Itália, basta dizer: "A Igreja".

Todas as Igrejas têm pontífices. A minha tem o Sumo Pontífice. Todas têm sacramentos. A minha tem o Santíssimo Sacramento, como tem a santíssima Virgem, a Santa Sé e um cântico muito conhecido nas comunidades canta: "Ó Pai, somos nós o povo eleito que Cristo veio reunir". Quem somos "nós"?

Aí estão os vermes e vírus da intolerância religiosa e da violência. Se nem tomo consciência de que existe o outro, como vou respeitá-lo e aceitar a sua alteridade? É essa pretensão à universalidade que, no Brasil, ainda hoje, provoca desrespeito aos direitos humanos, à liberdade de consciência e de cultura, por parte de missionários cristãos principalmente com relação a grupos minoritários ou que o etnocentrismo vigente considera como "religiões de segunda categoria", ou "religiosidades populares", como tradições indígenas e negras. Não aceito chamar nenhum grupo religioso de "seita", embora deva concordar que, muitas vezes, alguns dos grupos religiosos independentes tomam atitudes e defendam posições sectárias e eticamente lastimáveis.

Defendo um ecumenismo que não é um irenismo cego ou acrítico. Buscando um diálogo e um caminho de unidade na base da justiça e do direito, me sinto constrangido a criticá-los, sempre consciente de que, na história, muitas vezes, a minha Igreja teve atitudes e posições tão sectárias e desumanas quanto estas e, mesmo hoje em dia, todos precisamos sempre de nos converter permanentemente.


4 - O amor de Deus e os direitos humanos

Alguém disse que a espiritualidade é como uma fonte de água pura que nasce na montanha, límpida e potável. À medida que vai descendo e passa em cidades, o rio vai recebendo sujeiras e vai ficando poluído. Não estou dizendo que a religião é a poluição da espiritualidade até porque não acredito em um caminho espiritual individualista, ou apenas privado ou simplesmente intelectual ou do coração, sem expressão concreta e comunitária. Mas, penso que faria bem a toda religião tomar consciência da sua particularidade, ver-se como relativa e abrir-se às demais.

Os profetas e os místicos já vivem, a partir do seu particular, esse universal pluralista em gestação. Parafraseando Ibn Arabi, um místico islâmico do século XII, podemos repetir: "Quem é de Deus é universal. Leva em si a semente de todos os seres e se torna capaz de abarcar os mais diversos aspectos da mesma verdade".

A Bíblia ensina isso às comunidades judaicas e aos filhos do judaísmo que são o cristianismo e o islã. Revela que a primeira aliança que Deus fez foi holística. Através do sinal do arco-íris no céu, podemos lembrar que Deus está unido a todo o universo e a todo ser humano e não só a quem é da minha raça e religião. Israel sabe que só tem sentido falar em eleição para uma missão ética e humana em relação a toda humanidade. Lendo a Bíblia hebraica, não me lembro de ter visto nenhum exemplo de proselitismo ou tentativa de conquista de pagãos à fé javista. Mesmo Jonas é uma parábola e mostra muito mais que o Senhor ama também os ninivitas do que os ninivitas deve se converter ao Deus de Israel.

O Cristianismo contém o Sermão da Montanha como sua carta de fundação e uma carta de João que diz: "Deus é amor e quem vive o amor vive com Deus e Deus se revela a essa pessoa" (1 Jo 4, 16). Quem sabe, se o terceiro milênio será o momento de começar a praticar isso?

Para as religiões deixarem ser fatores de intolerância e desrespeito aos direitos humanos, a humanidade tem direito de exigir dos líderes e das comunidades religiosas, ao menos, duas coisas:

1 -
Que as religiões retomem sua proposta inicial. Esta "volta às fontes" despoluirá o rio. Cada religião tem sua proposta espiritual ou seus modos próprios de viver a mística ou a espiritualidade. Está na hora de aprenderem umas com as outras a se complementarem e se enriquecerem mutuamente.

À medida que formos mais semelhantes às grandes figuras da fé como Abraão, Moisés, Jesus Cristo, Buda, Maomé e tantos outros homens e mulheres que, em cada cultura e situação humana, viveram o amor de Deus, quanto mais nos deixarmos impregnar por essa energia divina, mais seremos unidos e mais seremos filhos e filhas da paz e da justiça. É a mística que salvará as religiões e restituirá a elas a sua verdadeira missão no mundo.

Em 1992, falando na Catedral da Sé em São Paulo, o Dalai Lama declarou: "Todo ser humano tem em si mesmo as sementes da compaixão. É preciso fazer com que essas sementes floresçam. Existe uma espiritualidade ligadas às religiões e outra que é simplesmente humana. O importante é que juntos façamos com que nessa terra desabroche a compaixão".

2 -
Nesse final de século onde nunca se matou tanto, a humanidade e a terra se encontram ameaçadas. Nesse processo de destruição, já vimos que as religiões tiveram sua parte de responsabilidade. Agora, é fundamental que contribuam para a paz, a justiça e a integridade da criação. Cada vez mais a credibilidade de uma religião depende da capacidade desta religião de servir às grandes causas da humanidade. De todas as partes, ecoam anseios com relação a isso.

Aos 89 anos, Dom Hélder Câmara continua pedindo que se lute por um ano 2000 sem fome, nem miséria no mundo. A fome tem de ser tratada não como um acidente atmosférico ou um resultado da superpopulação e sim como um índice de fracasso da proposta ética das religiões e como uma doença moral da humanidade.

Temos de nos engajar juntos pela superação de um sistema socio-político planejado para excluir milhões de seres humanos. Temos de, em nome de Deus, lutar contra a violência em todas as suas formas e manifestações. Temos de orar e trabalhar para que, cada dia, as grandes e pequenas potências não nos ameacem com uma guerra a mais só porque algum dirigente mundial precisa reconquistar o seu prestígio ou porque as grandes indústrias de arma precisam vender seus últimos artefatos bélicos. Há poucos anos, na esteira da "Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida", surgiu no Rio de Janeiro, uma ação inter-religiosa, inclusive com um "Fundo Inter-religioso Contra a Fome e pela Vida". Por que não revitalizar isso em um nível nacional e como testemunho do engajamento das religiões pela paz e pela vida?

Há décadas atrás, o escritor St Exupery expressava um pensamento que pode ser muito útil para o diálogo inter-religioso: "Amar, além do encontro de um com o outro, é também olhar juntos na mesma direção".

 
 



 
 

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